1ª PÁGINA


BIG on Bloor:

Festival leva milhares à Bloordale Village

Por João Vicente
Sol Português

Não são necessariamente os comes-e-bebes que levam as pessoas ao BIG on Bloor – como o nome indica, um grande festival de rua que mais uma vez se realizou no passado sábado (21) num troço da Bloor Oeste, entre a Lansdowne e a Dufferin.

Esses elementos estão presentes, sem dúvida, e atraem muita gente, mas o que mais define esta realização que desde há 11 anos anima nesta época a zona de Bloordale Village, no coração de Toronto, são as artes, a diversidade e a cultura.

"Dirigir o BIG on Bloor é um projecto de paixão e um trabalho a tempo parcial", diz-nos Darren Leu, que pegou nas rédeas deste projecto há cerca de dois anos, quando o anterior director, Dougal Bichan, decidiu passar o testemunho.

A organização BIG (Business Improvement Group) foi criada em 2006, inicialmente com o intuito de dar nova vida a este trecho da Bloor que na altura sofria com uma forte incidência de droga, crime e prostituição.

O festival começou por fazer parte da tentativa de transformar esta zona da cidade mas agora que esta e outras iniciativas surtiram efeito, Darren considera que está na altura de o concentrar em torno das artes e da cultura representativa da comunidade local, tanto de moradores como comerciantes.

"Agora é mais uma celebração do que temos e do que queremos", refere Darren, delineando a sua visão para o futuro do certame: "vejo [o BIG on Bloor] a concentrar-se mais nas instalações de arte, nos movimentos culturais, no diálogo e na conversação; na celebração das lojas e do comércio local que dão vida a esta zona da cidade, e a dar mais ênfase às pessoas criativas que fazem desta uma boa comunidade e impedem que seja traída pelos aumentos das rendas e pela gentrificação"

Para o actual director, o futuro passa por um festival com maior duração e com projectos de grande escala, ao mesmo tempo que mantém o seu carácter de "festa de bairro".

Prova deste espírito de convívio bairrista foi a cerimónia de entrega de prémios que decorreu logo ao início da tarde e que reconheceu várias pessoas pelas suas contribuições e dedicação a causas ou actividades consideradas meritórias.

Os nomes dos premiados eram bem conhecidos entre a compacta rede de artistas, activistas e entidades locais, assim como junto daqueles que participam dos eventos por eles organizados, mas eram em grande parte desconhecidos do público em geral, especialmente das muitas pessoas que ali se deslocaram vindas de outras zonas da cidade, fosse das mais chegadas, como Parkdale, ou distantes, como Etobicoke, entre outras.

Coube à deputada federal Julie Dzerowicz proceder à entrega de um dos prémios a David Anderson e Tamara Romanchuk, pelo trabalho que têm vindo a desenvolver com a companhia teatral Clay & Paper.

Bill Mboutsiadis foi distinguido por ter co-fundado um grupo denominado "Fix Our Schools", cujo objectivo tem sido chamar a atenção para os 16 mil milhões de dólares que são necessários para reparar e manter adequadamente as escolas da província do Ontário, sendo o seu o primeiro prémio entregue pela recém-eleita deputada provincial Marit Stiles desde que assumiu funções.

À vereadora e vice-presidente da Câmara de Toronto, Ana Bailão, coube a entrega da distinção a Colleen Russo, pelo seu esforço na organização de um grupo de mais de 500 pais e encarregados de educação que têm vindo a lutar pelos interesses das muitas famílias jovens que se têm vindo a mudar para a zona de Bloordale.

Darren Leu concedeu uma homenagem póstuma ao co-fundador do BIG on Bloor, Sid Bruyn, enquanto Liza Lukashevsky, presidente da Associação de Empresários de Bloordale, distinguiu Mark Alberts, o designer gráfico que concebeu o logótipo de Bloordal Village e é também figura activa noutras actividades, juntamente com a sua família.

Estima-se em cerca de 40.000 o número de pessoas que terão passado durante o sábado pelo BIG on Bloor, segundo nos indicou o director do festival.

"Vim cá de propósito [...] para mostrar algo de diferente aos meus filhos", dizia-nos Tânia Carolo, que já morou na zona de Bloordale mas reside actualmente em Etobicoke. "Está muito bom, estamos a gostar, está divertido com muitas actividades para as crianças", acrescentou, enquanto o pequenito Tiago, que a acompanhava, fez questão de salientar aquilo de que mais gostou: a "tatuagem" de um totem que lhe fizeram na perna.

As actividades eram, de facto, muitas e variadas – com pessoas a pintar, a declamar e a actuar, quiosques de yoga, origami, restaurantes ambulantes e de tudo um pouco – mas a presença artística era particularmente forte.

Para Lea Damasceno, que levou os pequenos Nicolas e Sabrina até ao festival, como já vem fazendo em anos anteriores esta é "uma coisa bacana de se participar – as crianças adoram e eu também", como nos diz, citando a diversidade de culturas e de comidas.

Apesar de também participar nas festas de rua que se realizam na College e na Dundas, esta é a sua preferida: "é uma coisa diferente que faz com que você aproveite mais o Verão e a cultura do lugar onde vive", concluiu.

Ali encontrámos também, no meio de tudo, o empresário Felipe Gomes, de London, que tinha vindo de propósito para vender parte do espólio do seu restaurante, Aroma, que fechou recentemente e cujas interessantes peças, vendidas a bom preço, levavam muita gente a perguntar-lhe onde ficava a sua "loja".

Também os políticos da área mantiveram uma presença constante ao longo da duração do evento, com Ana Bailão, Marit Stiles e Julie Dzerowicz a receberem o público nos quiosques que fizeram erguer neste certame, enquanto o vereador César Palacio, que não tinha tenda, fez questão de percorrer a área para falar com os visitantes.

"Este é o tipo de acontecimento que traz vida, alegria e vitalidade a esta comunidade e eu adoro isso", afirmou César Palacio, elogiando o quanto este género de realização beneficia o comércio local.

Por seu turno, Julie Dzerowicz regozijou-se com o facto de este ano haver mais artes e mais participação da comunidade neste festival, destacando ainda que embora a vasta maioria das pessoas se lhe dirigisse simplesmente para a cumprimentar, houve quem lhe colocasse também questões relacionadas com imigração ou com a qualidade do atendimento em certas repartições do governo, entre outras.

Nós próprios assistimos a uma menina dos seus 10 anos que, envergonhada mas curiosa, pedia à mãe para perguntar a Julie Dzerowicz: "o que faz uma deputada federal?".

"Eu acho que o festival tem mantido o espírito local e é isso que as pessoas gostam", afirmou Ana Bailão à nossa reportagem, aproveitando para ressaltar a forte componente artística deste acontecimento.

"As pessoas gostam de vir aqui porque é interactivo, vêem os vizinhos e podem provar algumas das comidas dos vários restaurantes", destacou ainda a vice-presidente da autarquia.

Entretanto, frente ao quiosque da nova representante provincial deste distrito, eleita pelo partido da Oposição (NDP), funcionários e voluntários de Marit Stiles recolhiam assinaturas de apoio ao actual currículo de educação sexual e contra a decisão do novo governo de reinstituir o currículo que vigorou de 1998 a 2015.

Quanto ao festival, a deputada considera que tem vindo a evoluir, conforme tem evoluído toda aquela zona da cidade, e que o facto de nele participarem tantos comerciantes locais "é sinal de que esta comunidade está a prosperar".

Ao longo de todo o dia o céu manteve-se bastante nublado e levantaram-se fortes rajadas de vento durante alguns minutos, mas pelo menos este ano não choveu, ao contrário de anos recentes, facto que terá ajudado a tornar esta numa excelente ocasião para que milhares de pessoas aproveitassem para descobrir o que a Bloordale tem de melhor para oferecer.


Voltar a Sol Português