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Peregrinos emocionados cumprem promessas ao Santo Cristo

A chuva contrastava com a emoção dos peregrinos que sábado (21) cumpriram, no Campo de São Francisco, em Ponta Delgada, nos Açores, as promessas ao Santo Cristo, dois anos após um interregno das festas, devido à covid-19.

Ao longo de todo o ano é possível orar ou contemplar a imagem do Santo Cristo a partir das grades que existem no interior da igreja da Esperança e que dão directamente para o coro baixo do convento.

Mas a experiência de estar "frente a frente" com a imagem "é inexplicável e é sempre uma grande emoção", descreveu à Lusa Catarina Amaral, 52 anos, natural de São Miguel, mas a residir no Canadá há 49 anos.

As festas do Santo Cristo estavam suspensas há dois anos devido à pandemia de covid-19, que impediu a realização das procissões de sábado e domingo, dois cortejos que integram anualmente a imagem do Santo Cristo.

Catarina Amaral veio a São Miguel propositadamente para as festas do Santo Cristo.

Veio para cumprir "uma promessa da irmã" feita por motivos de saúde, que a pandemia "só agora deixou que fosse concretizada".

"Já não vinha à minha ilha há nove anos. Fico sempre tão emocionada ao ver a imagem de perto", disse a emigrante açoriana, rodeada do marido e dos filhos, no Campo de São Francisco, ansiosa por ver de perto a imagem do Santo Cristo.

É a primeira vez que os filhos de Catarina Amaral assistem às festas do Santo Cristo e podem ver "frente a frente" a imagem.

"Há 32 anos que o meu marido não estava cá", acrescentou a emigrante, natural da ilha de São Miguel, à espera de ver a imagem do Santo Cristo.

Em redor do Campo de São Francisco, cumpriram-se as promessas ao Santo Cristo, com uma multidão de peregrinos de joelhos e outros carregando molhos de círios (velas) às costas.

Muitos dos fiéis, homens e mulheres, optaram por cumprir a promessa sozinhos, mas alguns fizeram o trajecto acompanhados por familiares ou por amigos, que caminhavam ao seu lado.

"Quem tem fé a dor passa", confessou à reportagem da agência Lusa Maura Rocha, 42 anos, residente na Ribeirinha, concelho da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, após cumprir a promessa de joelhos em redor do Campo.

Maura e a irmã, Carina Botelho, de 38 anos, optaram por vir até Ponta Delgada "bem cedo".

"Viemos às sete da manhã, porque ainda vamos trabalhar", explicou.

Junto ao Santuário da Esperança dezenas de peregrinos faziam fila para a compra de círios.

"A fé é que nos ajuda", disse à Lusa Dinis Jesus, 54 anos, residente em Ponta Delgada, em São Miguel, carregando dois círios para levar na procissão de domingo.

Passados dois anos, sem festividades, Dinis Jesus diz que este ano o sentimento "é ainda maior e muito forte".

"Não interessa a chuva. Estou muito emocionado de ver o Senhor na rua. Fui criado com estas festas", sublinhou à Lusa.

As festividades do Senhor Santo Cristo dos Milagres, consideradas a segunda maior manifestação religiosa do país depois das peregrinações a Fátima, levam anualmente milhares de peregrinos de todo o mundo até à ilha de São Miguel, oriundos das nove ilhas dos Açores, do continente, assim como dos Estado Unidos da América e do Canadá.

As festas iniciaram-se na sexta-feira e têm por referência a imagem do "Ecce Homo", tendo por base o quinto domingo a seguir à Páscoa.

Este ano as festas decorreram até quinta-feira (dia 26) e tiveram um novo formato, ainda devido à pandemia, já que a imagem do Santo Cristo permaneceu no adro da Igreja do Santuário na noite de sexta-feira e assim aconteceu no sábado e no domingo.

Ainda na tarde de sábado realizou-se a procissão com a imagem do Santo Cristo em redor do Campo de São Francisco, na cidade de Ponta Delgada.

No domingo a Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres saiu do convento para integrar a procissão, iniciando um trajecto de cerca de quatro horas.

Tapetes de Flores voltam a colorir Ponta Delgada para enfeitar "caminhos" do Santo Cristo

José Cabral, que colabora há cerca de 20 anos na construção de tapetes de flores para a procissão do Santo Cristo, que domingo (22) voltou às ruas de Ponta Delgada, nos Açores, considerou-se "privilegiado" por enfeitar "os caminhos do Senhor".

A procissão do domingo do Senhor Santo Cristo dos Milagres voltou a percorrer, as ruas de Ponta Delgada, após dois anos sem festejos devido à pandemia de covid-19.

Além dos privados, empresas, comerciantes e diversas entidades asseguraram a cobertura de todo o percurso da procissão com tapetes de flores.

"É um privilégio estar a enfeitar a rua para o Senhor Santo Cristo passar. Já faço isto há cerca de 20 anos", contou à reportagem da agência Lusa, José Cabral, na Rua Caetano Andrade Albuquerque, no centro da cidade de Ponta Delgada.

Apesar da chuva que se registou, as horas que precederam a saída da procissão do Santo Cristo foram de grande azáfama com a construção dos tradicionais tapetes de flores, que voltaram a colorir a cidade de Ponta Delgada, em São Miguel.

Rodeado de sacos, aparas de madeira coloridas e ramos verdes de criptoméria, José Cabral admitiu à Lusa que as condições meteorológicas "não ajudaram muito este ano".

"São aparas de madeira de pinho, porque assim a cor fica mais viva. Vieram da freguesia das Furnas", explicou à Lusa, apontando para a existências das cores rosa, roxo e amarelo que serão depois colocadas nos moldes de madeira.

Na Rua Caetano Andrade Albuquerque o tapete de flores para a procissão da tarde tinha "mais de 100 metros", garantiu à Lusa Gustavo Oliveira, que também colabora na construção dos tapetes "há 16 anos".

O trabalho de preparação do tapete de flores começou cedo.

"Venho logo de manhã para enfeitar. Isto é uma missão. Quem faz por gosto não cansa", explicou Gustavo Oliveira, acrescentando que a realização destes tapetes demora "entre duas a três horas".


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