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Covid-19:

Governos insistem no cumprimento das medidas decretadas para evitar acções mais drásticas

Por João Vicente
Sol Português

"Estamos a avaliar a situação hora-a-hora", garantiu a vice-presidente da Câmara de Toronto, Ana Bailão, quando contactada pelo jornal Sol Português no passado domingo (22), numa altura em que a região de York anunciava a primeira morte relacionada com o Covid-19 e a quinta no Ontário, pelo menos 13 funcionários de saúde de primeira linha tiveram testes positivos e o Canadá anunciou que não enviaria os seus atletas para participar nos jogos olímpicos caso estes se realizassem este Verão.

A Área da Grande Toronto, tal como muitos outros centros urbanos em vários países, está a atravessar uma situação inédita devido à ameaça do Covid-19, um vírus que foi primeiro detectado em Wuhan, na China, e é apelidado de novel coronavírus ou SARS-CoV-2.

Passada cerca de semana e meia desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou tratar-se de uma pandemia e os vários níveis governamentais canadianos reagiram para tentar travar a progressão do vírus no país, abordámos as entidades políticas que representam o distrito de Davenport, em Toronto, onde reside a maior concentração de portugueses e seus descendentes no Canadá, para que fizessem o ponto da situação.

De imediato se tornou aparente que a própria classe política pouco vislumbra além do horizonte e, como todos, aguarda o desenrolar dos acontecimentos momento a momento pois a situação não se presta a previsões ou projecções a longo prazo.

Muito do que acontece tem a ver com a forma como a população cumpre com as instruções e os pedido de isolamento emitidos pelos vários níveis de governo – autárquico, provincial e federal.

"O meu escritório está sobrecarregado porque as pessoas têm medo e estão preocupadas", explica Julie Dzerowicz, a deputada Liberal que representa Davenport no Parlamento federal, quando indagámos como se encontrava.

Com o Parlamento em Otava suspenso, excepto para um número reduzido de deputados, e com o próprio Primeiro-Ministro Justin Trudeau em isolamento, a deputada acrescentou estar "bem" e explicou que não seria "um dos 14 deputados Liberais que têm de ir para Otava".

Julie Dzerowicz revela que estes têm sido dias muito intensos e que desde que liga o computador, logo pela manhã, não pára até à noite, sempre a responder aos apelos dos canadianos que se encontram retidos em países de onde têm dificuldade em sair sem a assistência do governo canadiano, além de esclarecer as muitas dúvidas e questões que lhe são colocadas pelos cidadãos do seu distrito e tenta manter-se informada da situação e a par do que é dito pelo Primeiro-ministro, pelos vários ministros do governo e pelas entidades responsáveis pelo sistema de saúde.

Questionadas sobre se as medidas que restringem a abertura de certos estabelecimentos e as actividades da população estariam a ser comunicadas e feitas cumprir pelos respectivos níveis de governo com a celeridade necessária, ou se não se estariam a tomar medidas insuficientes e tarde demais, como muita gente parece julgar, tanto Ana Bailão como Julie Dzerowicz e Marit Stiles, deputada provincial eleita por Davenport, disseram que os seus governos estão a seguir as directivas emitidas pelos respectivos directores de saúde e pela OMS, que são os peritos no assunto.

Segundo Julie Dzerowicz, a OMS teria até citado a resposta do Canadá a esta crise como "exemplar", mas o encerramento total das fronteiras que é exigido por algumas pessoas será impossível pôr em prática pois muitos dos medicamentos, alimentos e equipamento vêm de fora do país e isso implicaria a paragem total da actividade de inúmeras empresas que fornecem bens e serviços essenciais.

A deputada federal salienta que no Canadá se dá grande valor à liberdade e aos direitos dos cidadãos por isso, embora o governo federal tenha à sua disposição recorrer ao decreto que visa a tomada de medidas de emergência e que, como explica, permite "literalmente exigir e impor, através da polícia, exército e outros mecanismos, o recolher obrigatório", gostariam de evitar ter de "chegar a esse ponto de limitar a liberdade das pessoas", pelo que pedem "para que o façam voluntariamente, não só pelo seu interesse próprio e do das suas famílias, mas também da comunidade em seu redor", referiu.

No entanto, deixa claro que, tal como já foi anunciado pela ministra da saúde, Patty Hajdu, caso as pessoas não cumpram com o que lhes é pedido, obrigam o governo a tomar medidas mais drásticas, incluindo a aplicação de multas ou ordem de prisão, tal como aconteceu a uma mulher no Quebeque que chegou de viagem e foi detida por violar a obrigatoriedade de permanecer em quarentena.

Julie Dzerowicz enfatiza que "quem tiver sintomas tem de ficar em casa" e "mesmo quem não tenha sintomas" deve manter uma distância de dois metros das outras pessoas, relatando que quem não respeita essa regra deve ser chamada à atenção, tal como ela própria tinha feito a alguém no dia anterior.

"Estamos a ver o que se passa no mundo e a incorporar o melhor que se tem feito", explica a deputada federal, apontando para os 54.000 testes realizados nos cinco dias anteriores como exemplo disso.

"Garanto-vos que estamos a aumentar exponencialmente a nossa capacidade de fazer testes", afirmou, indicando ser essa "a chave para `atenuar a curva", a propósito do crescimento no número de casos detectados.

Isso "não significa que deixem de haver casos de coronavirus, mas [a quantidade de infectados e doentes] não vai acelerar tão rapidamente ao ponto dos nossos hospitais ficarem cheios e deixarem de poder servir as pessoas", esclareceu, indicando que "foi o que aconteceu em Itália e em Espanha", onde neste momento "têm de tomar decisões horríveis sobre quem tratar e quem pôr nos respiradores mecânicos, porque não tomaram as decisões que o Canadá já tomou".

As três políticas que representam Davenport elogiaram os bons exemplos com que se têm deparado na comunidade que representam, com Julie Dzerowicz a notar que as lojas em "Little Portugal" continuavam abertas (não havia ainda sido decretado o encerramento das empresas designadas "não essenciais"), mas que as pessoas pareciam estavar a cumprir com as regras da distância que deviam manter umas das outras.

Segundo referiu, os 82.000 milhões de dólares que o governo federal anunciou para atenuar o impacto económico do Covid-19 nos indivíduos e nas pequenas empresas "é apenas a primeira fatia" de um plano financeiro, passando a explicar que "apenas agimos e fizemos o que foi possível no espaço de duas semanas".

As pessoas que ficarem desempregadas, os que trabalham a tempo parcial e os designados colaboradores independentes (freelancers), assim como os pais que estejam a tomar conta dos filhos durante o encerramento das escolas poderão submeter os seus pedidos de assistência financeira em Abril através do website servicecanada.gc.ca.

Quanto aos trabalhadores indocumentados, alguns que estão sindicalizados estão a receber apoio dos sindicatos, mas Julie Dzerowicz não tem conhecimento de outros apoios financeiros que lhes sejam dirigidos.

A deputada realça que qualquer pessoa com sintomas de Covid-19 deve telefonar para a Telehealth (1-866-797-0000) e se lhe for dito que deve ser testado e o teste lhe for recusado, seja por que motivo for, deve contactar de imediato com o seu escritório (416-654-8048) ou com os representantes eleitos pelo distrito onde reside.

Entretanto, todos os que necessitarem devem recorrer aos bancos alimentares e às refeições que são servidas por igrejas e outras organizações comunitárias.

A deputada apela ainda aos líderes comunitários luso-canadianos para que procurem determinar quem são as pessoas mais vulneráveis na comunidade – idosos, pessoas em situação precária de trabalho, de finanças ou de saúde, entre outros – e como ajudá-las.

"Cabe-nos a todos nós tomar a iniciativa e determinar como é que nos podemos apoiar uns aos outros nesta altura difícil", afirmou Julie Dzerowicz, aproveitando ainda para pedir que os cidadãos canadianos no estrangeiro se registem nas embaixadas locais.

A deputada realça a existência do telefone 1 (613) 996-8885 e do e-mail sos@international.gc.ca que deve ser usado caso estejam a tentar regressar e não possam, devido à falta de voos, encerramento de aeroportos ou ocorrências semelhanças.

Por seu turno, Marit Stiles, que destaca que esta situação veio demonstrar "mais do que nunca o quanto o nosso sistema de saúde é importante", fez um elogio e agradecimento aos funcionários da rede de saúde "que estão a dar tudo por tudo em hospitais, nas urgências e em lares".

A deputada provincial que representa Davenport diz-se satisfeita "com muitas das medidas que têm sido introduzidas", mas considera "que o governo tem de lidar mais rapidamente com alguns destes problemas" pois as pessoas "têm de sentir que estão seguras ao afastarem-se do local de trabalho ou ao fecharem as portas das suas pequenas empresas e vão continuar a poder alimentar as suas famílias", já que "isso é a única coisa que nos impede de enfrentar o problema de forma eficaz".

Segundo indica, o maior número de chamadas que recebe no seu escritório de representação é de pessoas preocupadas com os seus empregos e situação financeira, nomeadamente com a capacidade de "pagarem a renda, água, luz e outras coisas básicas que", destaca, "numa cidade cara como Toronto" depressa "se tornam preocupantes", pelo que a sua preferência seria a adopção de um salário básico garantido.

A deputada do NDP diz que apesar de estar no partido de oposição oficial ao governo Conservador de Doug Ford, "numa situação destas", é importante ""trabalhar com o governo para encontrar soluções", realçando que "nunca foi tão importante trabalhar em conjunto".

Marit Stiles destaca quererem "levar até ao governo o que estamos a ouvir nas nossas comunidades, juntamente com soluções e ideias – e eles também nos querem ouvir, e isso é muito importante".

"Uma coisa é aliviar as pessoas dos pagamentos das mensalidades da hipoteca, mas se isso não está a passar para os inquilinos, eles precisam de saber que além de não serem postos na rua também não vão ter de lidar com seis meses de renda lá mais para a frente", nota a deputada que defende mais clareza nas mensagens emitidas pelos vários níveis de governo, assim como firmeza na sua aplicação.

"Quando virmos tudo isto pelas costas e analisarmos o que se passou, acho que vamos descobrir que devíamos ter vindo a investir em coisas como a saúde pública e hospitais", refere a política que se declara "contente em ver os governos a trabalharem agora em conjunto e a investirem onde faz falta neste momento".

Marit Stiles expressou ainda esperança de que o que deveria ter sido a apresentação esta semana do orçamento do governo Conservador viesse a transformar-se num anúncio de perspectivas fiscais no qual fossem examinados diferentes cenários para sobreviver a esta tormenta e estimular a economia.

Após elogiar o pedido do governo de Doug Ford à indústria para que redireccionasse as suas capacidades por forma a ajudar a ultrapassar as dificuldades que se atravessam neste momento, Marit Stiles disse ainda que quando esta crise terminar "vamos precisar que o governo continue a desempenhar um papel preponderante durante muito tempo" e "continue a investir especificamente em pequenas e médias empresas para as ajudar a recuperar e também ajudar a indústria a ser mais ágil".

"Acho que este momento vai ter muitas lições" para quem "até agora não o tem levado a sério", referiu, destacando ser necessário "falar sobre o quanto o trabalho se tem vindo a tornar precário", "como a vida na Área da grande Toronto se tem vindo a tornar incomportável para cada vez mais famílias e sobre as medidas que o governo pode implementar para as ajudar a recuperar".

Como ressalva, porém, vai levar tempo até que as pessoas, as empresas, e o sistema de saúde recuperem deste embate com o Covid-19.

Também a nível municipal Ana Bailão vê a situação actual como um problema bifurcado onde, a par das questões de saúde, existe uma importante componente económica que ilustra referindo o número de pedidos de subsídio de desemprego: este ano rondavam até àquele momento meio milhão (são já mais de um milhão, entretanto) enquanto que em igual altura no ano passado se ficavam pelos 27.000.

Mas no fundo este é um problema de logística, tanto na vertente da saúde onde limites de equipamento põem em questão a prestação dos profissionais do sector médico e de enfermagem e a saúde dos pacientes, como no abastecimento e fornecimento dos bens essenciais para todos os cidadãos.

"Depois há o impacto social, porque temos muitos idosos", destaca ainda a vereadora luso-canadiana, ao lembrar que "perante uma situação que não sabemos quanto tempo vai durar", como é que se deve proceder para garantir "que estas pessoas podem ficar em casa e que temos comida distribuída às que não podem sair e não pomos em risco as que podem", referindo a título de exemplo as lojas que dedicaram certas horas aos idosos para que possam fazer as suas compras mais descansados e com menor risco.

"Agora", diz a vereadora de Davenport, "é a análise contínua de quando é que outras medidas vão ter de ser postas em [vigor]", o que a seu ver "depende de como as pessoas agem", ressalvando que "se tivermos uma adesão forte agora" enquanto o número de casos, comparados com outros países, não é muito elevado, poderão evitar-se medidas mais desagradáveis.

Contudo, indica que continuam "a ver constantemente muitos problemas e muita gente a não levar isto muito a sério e a haver concentrações desnecessárias", o que, a seu ver, "vai fazer com que tenhamos de tomar medidas mais drásticas".

A vice-presidente do município de Toronto refere que a maioria das medidas mais fortes a tomar estão nas mãos dos governos provincial e federal, mas mesmo a nível municipal já referiu a necessidade de sinalizar e fechar os parques infantis devido à falta de cooperação de muita gente.

Com alguma exasperação a transparecer na voz lembrou que "se pedimos às pessoas para que mantenham dois metros de distância, só estejam abertas as lojas que são necessárias e tudo o mais... se estamos a implorar isto, é para evitar tomar medidas que vão ter um impacto muito maior".

"Poderíamos todos sair disto muito melhor – com um impacto menor na economia e nas nossas vidas – se as medidas" fossem cumpridas, lembrou, destacando que a falta de cumprimento de alguns torna a situação mais dolorosa para todos ao prolongar o período de restrições que é necessário para ultrapassar esta fase.

Entretanto, aponta para as medidas tomadas a nível camarário que permitem o adiamento do pagamento do imposto predial, podendo vir a ser aplicadas ainda outras, que serão influenciadas pela duração deste surto de Covid-19.

"A preocupação maior agora é ter o equipamento necessário nos serviços de saúde, dar-lhes todo o apoio e evitar a propagação do vírus", refere Ana Bailão ao mesmo tempo que garante que "todas as medidas necessárias estão em cima da mesa e vão ser tomadas" conforme a situação evoluir, o que acontece "praticamente de hora-a-hora".

"A única coisa que pedimos é a cooperação, compreensão e a paciência máxima das pessoas", diz a vereadora alertando para que "tenham cuidado nas lojas, compreensão e apoio para com as pessoas que estão a trabalhar, para continuarmos a manter os nossos serviços básicos disponíveis – e tenham calma, muita calma", acrescenta.

As três políticas representantes de Davenport mantêm informações actualizadas nos seus portais electrónicos, que podem ser consultados em jdzerowicz.liberal.ca, anabailao.com e maritstiles.ca, podendo o público ainda inscrever-se para que lhes sejam enviados os boletins informativos electrónicos que emitem periodicamente e que podem ser solicitados, respectivamente, através dos e-mails julie.dzerowicz@parl.gc.ca, councillor_bailao@toronto.ca, ou na primeira página do website maritstiles.ca.


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