1ª PÁGINA


Canadá/Covid-19: Toronto e Peel em confinamento durante pelo menos 28 dias

Com quase quatro milhões de pessoas infectadas no espaço de uma semana em todo o mundo, o total de casos detectados desde o início da pandemia ronda agora os 60 milhões – 40,5 milhões dos quais são dados como recuperados, 1,4 milhões faleceram (mais 66.000 do que na semana anterior) e cerca de 18 milhões são considerados activos.

Dado o número de novos casos continuar a aumentar rapidamente, a taxa de recuperação mundial regrediu mais uma vez, caindo de 71,1 por cento na semana anterior para os actuais 68,2 por cento.

Entretanto, o Canadá viu o total nacional aumentar para quase 334.000, acrescido por mais de 28.000 casos detectados na semana transacta e cerca de 400 mortes que elevaram o número de óbitos para 11.500, mas com um melhoramento na taxa de recuperação que de 80,1 por cento passou a 80,6 por cento (269.124 pessoas).

A meio da última semana a ministra da Saúde do Ontário, Christine Elliott, revelou que dos seis milhões de doses de vacinas que se espera que cheguem ao Canadá entre Janeiro e Março de 2021 – quatro milhões de doses da farmacêutica Pfizer e dois milhões da Moderna – 1,6 milhões de vacinas da Pfizer e 800.000 da Moderna destinam-se à província do Ontário.

Contudo, alguns dias depois a ministra federal responsável pelas aquisições, Anita Anand, viria a pôr água na fervura das previsões mais optimistas ao sublinhar que o Canadá só receberá as vacinas encomendadas quando – e se – o Departamento de Saúde, responsável por avaliar a sua segurança, as aprovar para uso no país.

Por seu turno, o Primeiro-ministro Justin Trudeau salientou que mesmo que as vacinas candidatas sejam aprovadas, há que ter em consideração que o Canadá está na fila, atrás de países como os EUA, Alemanha, Inglaterra e outros, onde estão sedeadas as companhias que as produzem.

Entretanto, a ministra da saúde do Canadá, Patty Hajdu, indicou que a ex-conselheira de segurança nacional, Margaret Bloodworth, vai dirigir uma investigação ao sistema nacional de alerta de pandemias para determinar se este falhou precisamente quando surgiu a Covid-19.

A investigação está a cargo de um comité composto por três elementos, incluindo Margaret Bloodworth, que irá examinar o que aconteceu à Rede Global de Informação sobre Saúde Pública, um sistema de detecção que foi implementado há mais de duas décadas e que ajudou a alertar com antecedência para as pandemias de SARS em 2003 e H1N1 em 2009.

Alguns peritos alegam que as atenções daquela agência passaram da situação internacional para a doméstica, o que privou o Canadá de ter acesso antecipado a informações importantes acerca do novo coronavírus.

A ministra Patty Hajdu quer que o comité investigue se o sistema de facto falhou e como fazer para melhor preparar o país para dar resposta a futuras pandemias que possam surgir.

Enquanto isso, foi decretado que a fronteira do Canadá com os Estados Unidos da América irá continuar encerrada à circulação considerada "não essencial" durante pelo menos mais 30 dias.

A anterior extensão deste decreto terminava na passada sexta-feira (20).

Na véspera, o número de pacientes com Covid-19 nas unidades de cuidados intensivos ou ligados a ventiladores registou um aumento súbito, atingindo um nível face ao qual os hospitais começam a cancelar as cirurgias designadas "electivas" (não urgentes).

A situação levou o Dr. Isaac Bogoch, especialista em doenças infecciosas, a pronunciar publicamente que "é óbvio que é necessário mudar definitivamente de direcção para proteger os nossos sistemas de saúde e salvar vidas".

Segundo um estudo tornado público pela instituição financeira Royal Bank of Canada, o mercado de trabalho perdeu cerca de 20.000 mulheres, numa altura em que mais 60.000 homens entraram no activo.

O estudo aponta como justificação provável desse êxodo a necessidade de cuidarem dos filhos, padrão de comportamento que considera poder vir a abrandar o ritmo da recuperação económica e a influenciar o futuro de indústrias dominadas principalmente por mulheres.

No final da semana o governo federal revelou que as mais recentes projecções da pandemia no país prevêem que o número de novas infecções diárias possa atingir 60.000, caso as pessoas continuem a aumentar a frequência com que contactam com outras; 20.000, se a situação se mantiver inalterada; ou 10.000, se limitarem imediatamente os contactos.

Considerados alarmantes, os números foram comunicados em privado aos dirigentes dos partidos da Oposição e na sexta-feira (20) o Primeiro-ministro Justin Trudeau veio a público para implorar a todos os canadianos para que fiquem em casa, salvo para as suas actividades e compras essenciais.

O chefe do governo anunciou ainda que Otava vai conceder imediatamente mais 120 milhões de dólares para as comunidades indígenas que estão a braços com surtos de Covid-19 em Saskatchewan e Alberta.

Numa vertente mais positiva, o Departamento de Estatísticas do Canadá revelou que as vendas a retalho estavam bem encaminhadas antes do ressurgimento da pandemia e tinham aumentado 1,1 por cento em Setembro – o quinto mês consecutivo de crescimento desde a quebra em Março e Abril.

No fim-de-semana, um grupo de virólogos deitou um balde de água fria sobre a onda de optimismo gerada pelos dados preliminares promissores que tem sido divulgados por várias empresas farmacêuticas com respeito às vacinas que têm em desenvolvimento.

Segundo acautelaram aqueles especialistas, é necessário ter algum cepticismo em relação ao que classificam de "ciência por comunicado à imprensa", e destacam haver ainda um longo caminho a percorrer desde as bancadas dos laboratórios até que cheguem às mãos dos médicas e enfermeiros que as irão ministrar.

Ainda no fim-de-semana, Justin Trudeau e os dirigentes das 20 nações mais ricas do mundo emitiram um comunicado conjunto ao encerrarem a cimeira virtual dos G20 no qual prometem continuar a cooperar para preservar a actividade comercial, combater as alterações climáticas e garantir o fornecimento de vacinas contra a Covid-19 aos países menos abastados.

Entretanto, no Ontário as regiões de Toronto e Peel preparavam-se para mais um período de 28 dias de confinamento, numa altura em que a província ultrapassava 100.000 casos confirmados de Covid-19 desde o início da pandemia.

Com entrada em vigor na segunda-feira (23), o novo ciclo de confinamento permite que as escolas e as creches continuem abertas, por ter sido determinado pelas autoridades de saúde que continuam a ser locais seguros, mas os restaurantes e bares voltaram a só poder vender comida e bebidas para take-out e as esplanadas tiveram de ser encerradas.

Os estabelecimentos comerciais ficam encerrados ao público, mas podem continuar a vender online ou pelo telefone, e as encomendas podem ser levantadas à porta ou entregues em casa.

As excepções são os supermercados, farmácias, casas de ferragens, lojas do dólar, de conveniência ou que vendem artigos de segurança, as grandes superfícies que vendem mercearias, assim como os estabelecimentos de cerveja, vinho ou outras bebidas alcoólicas, às quais é permitido o atendimento presencial mas apenas em metade da sua capacidade.

Os convívios ao ar livre ficam limitados a um máximo de 10 pessoas, tal como os casamentos e funerais, quer dentro ou fora de portas, desde que se cumpram as regras de distanciamento social.

As novas directrizes decretaram ainda o encerramento de barbearias, salões de cabeleireiro e de beleza, assim como dos ginásios, e proíbem a actividade das empregadas de limpeza que andam de casa em casa.

No mesmo dia em que em Toronto e Peel entravam em vigor as directrizes deste novo ciclo de confinamento, a ministra das Finanças do Canadá, Chrystia Freeland, anunciava que o governo vai apresentar uma análise actualizada das finanças federais no dia 30 de Novembro.

Por seu turno, o Primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, revelou ter já pedido ao general Rick Hillier, ex-chefe das Forças Armadas Canadianas, para dirigir a campanha para a distribuição da vacina contra a Covid-19 na província do Ontário quando esta estiver disponível, pois, como destacou, vai ser uma das iniciativas de maior envergadura desta geração e pode bem "tornar-se num pesadelo logístico sem o planeamento adequado.

Entretanto a farmacêutica AstraZeneca juntou a sua voz ao coro de firmas que dizem ter desenvolvido vacinas com elevado grau de eficácia, anúncio que recebeu um caloroso acolhimento por parte do chefe de cientistas da Organização Mundial de Saúde.

Segundo ele, esta vacina tem "vantagens logísticas" em relação às da competição – que têm de ser guardadas a -80º centígrados – o que facilita a sua distribuição por se manter estável num frigorífico normal, a uma temperatura entre 2º e 8º centígrados.

No entanto, o analista financeiro Geoffrey Porges, da firma SVB Leerink, questiona a forma como os resultados foram calculados e apresentados pela companhia, pondo em causa a sua fiabilidade.

Esta terça-feira (24) o governo do Ontário começou a distribuir testes rápidos de despistagem de Covid-19, indicando que os novos dispositivos estavam já a ser usados em alguns hospitais assim como em 63 lares da terceira-idade e instituições de cuidados de saúde prolongados.

Segundo o primeiro-ministro provincial, Doug Ford, ao longo das próximas semanas o governo vai continuar a colocar em circulação os 98.000 testes "ID Now" e 1,2 milhões de testes "Panbio" enviados pelo governo federal, de quem dependia a sua aprovação para uso no país.

Com o ressurgimento da pandemia não serão surpreendentes os resultados dum estudo que foi esta semana tornado público e que revela que os funcionários que trabalham no sistema de saúde do Ontário se sentem amedrontados e exaustos.

Os entrevistados – enfermeiras, pessoal de apoio e outros – dizem sentir-se abandonados pelo governo, queixam-se de que continua a faltar equipamento de protecção e dizem temer represálias caso revelem as condições de trabalho nos hospitais e nas instituições de cuidados de saúde prolongados.

Enquanto os funcionários do sector da saúde lamentam a pressão que sentem e se insurgem contra as condições de trabalho, um restaurante em Etobicoke resolveu abrir as portas em contravenção da proibição governamental.

Na segunda-feira (23) o proprietário do restaurante Adamson Barbecue, Adam Skelly, publicou um vídeo no Instagram onde deu largas à sua frustração com as ordens de confinamento decretadas pelo governo e afirmou que o seu restaurante estaria aberto no dia seguinte.

Assim foi e o estabelecimento atraiu grandes multidões de manifestantes e de público – alguns a optarem por levar comida para casa e outros a consumirem as suas refeições no interior e nos bancos colocados no exterior.

Apesar de numerosa presença policial, os agentes da autoridade nada fizeram para impedir o que estava a acontecer e o restaurante continuou aberto até às 16h00, altura em que a Câmara anunciou que a directora de saúde da autarquia, a Dra. Eileen de Villa, tinha decretado o seu encerramento ao abrigo da Lei Provincial de Protecção e Promoção da Saúde.

Na manhã de quarta-feira (25) o restaurante voltou a reabrir, em contravenção das ordens, mas, após um período de conversações entre o proprietário e a Polícia, viria a fechar pouco antes do meio-dia.


Voltar a Sol Português