1ª PÁGINA


Clubes e Associações portuguesas da Grande Toronto voltam a dar sinais de vida

Por João Vicente
Sol Português

Desde meados de Março que os clubes e associações portuguesas no Ontário encerraram as portas e cessaram por completo as suas actividades, salvo pouco mais do que um par de excepções e por razões especiais.

Queixa comum a todas as colectividades tem sido a ausência quase total de ajuda de qualquer um dos três níveis de governo e até de falta de interesse por parte de políticos locais.

Agora que o desconfinamento começa a oferecer quase um mínimo de condições e algumas colectividades procuram reactivar-se, o jornal Sol Português tomou o pulso de algumas que são, historicamente, as mais activas para saber como estão e como pensam superar as dificuldades criadas pelos últimos meses.

***

Dado não poder funcionar com normalidade e da forma habitual, a Casa dos Açores do Ontário (CAO), tal como outras, tem estado envolvida numa série de iniciativas destinadas a ajudar os que mais necessitam.

Contactada pela firma Hallmark Housekeeping com vista a organizarem a entrega de refeições durante duas semanas, com o patrocínio daquela firma e do restaurante Leão D'Ouro, a presidente da colectividade, Suzanne da Cunha, achou que fazia sentido tentarem fazer algo pela comunidade.

Assim, e para além dessa iniciativa, desde Maio que a colectividade açoriana tem vindo a proceder também à entrega de cabazes com bens essenciais que se destinam a ajudar pessoas afectadas pelas medidas de confinamento.

O centro Working Women ajudou a organizar uma dessas entregas, que visou seis famílias indocumentadas, e a CAO tem vindo a trabalhar em parceria também com o assistente social José Dias, que ajudou a direccionar outros cabazes para pessoas necessitadas.

Entretanto, José Dias ajudou igualmente a congregar os esforços e os contributos da CAO, da Casa do Alentejo de Toronto (CAT) e do empresário Manuel da Costa para proporcionarem gelados e queques a crianças da comunidade, uma iniciativa que Suzanne Cunha descreve com carinho.

"Como professora, foi importante fazer isto pelas crianças porque elas também foram muito afectadas pela pandemia; foram atiradas para uma situação em que nunca se tinham encontrado antes e foi importante reconhecê-las", diz-nos a presidente da CAO, acrescentando que para as crianças da colectividade foram preparados certificados de incentivo, que reconheceram o bom trabalho que fizeram durante o período de ensino à distância.

A CAO procura agora voltar ao activo, embora lentamente e dentro das condicionantes que se vierem a impor, mas segundo a nossa interlocutora a intenção é continuarem a confeccionar e a entregar comida às pessoas da comunidade que necessitem de assistência, o que irão fazer num sistema de rotação em parceria com a CAT, alternando a cada duas semanas.

Segundo revelou, na pretérita quarta-feira (19) foram entregues 50 refeições e no sábado (22) foram servidos cachorros quentes e gelados aos jovens que, em dois turnos diferentes, para garantir o distanciamento, receberam também de brinde um pacote de materiais para o regresso às aulas.

A colectividade açoriana tem conseguido manter-se com as receitas provenientes do aluguer do restaurante Ilhas de Bruma, tendo obtido do governo o subsídio de "alívio de renda", e prevê poder continuar durante mais algum tempo sem problemas.

Na CAT a situação é algo parecida, no sentido de que também esta colectividade tem um restaurante (O Sobreiro) como fonte de receita, tendo este voltado a servir refeições ao público há cerca de três semanas.

Segundo o presidente da colectividade, Carlos de Sousa, por enquanto o atendimento está limitado ao serviço de jantares à sexta-feira e de almoços ao sábado – como já anteriormente havíamos noticiado – e até ao fim deste mês será prestado apenas por voluntários "porque não há dinheiro para pagar a empregados ainda" e porque esta jogada poderia revelar-se arriscada, caso as pessoas não aderissem, como explicou.

Contudo, a intenção é voltarem a chamar os empregados já no primeiro fim-de-semana de Setembro, altura em que poderão até vir a adicionar o domingo aos dias de funcionamento do restaurante.

Por enquanto parece que o público está a aderir, tendo o restaurante registado mais de 40 clientes no primeiro dia e outras três dezenas no segundo – a maioria com reserva antecipada, sendo as restantes refeições servidas para take-out.

Entretanto, e em termos financeiros, Carlos de Sousa explica que as contas de água, da luz e do gás estão a ser pagas, e que o detentor da hipoteca autorizou a que o pagamento das prestações ficassem em atraso.

Contudo, uma inspecção dos bombeiros revelou que algumas coisas não estavam a par das actuais regras do código de incêndios, pelo que a CAT teve de incorrer algumas despesas adicionais para rectificar a situação.

Apesar de tudo, Carlos de Sousa diz-nos que a colectividade se vai aguentando pelo que a venda do prédio que lhe serve de sede não é algo que queira sequer considerar.

Caso viesse a ser necessário, preferiria criar uma parceria com alguém que deseje construir mais andares, para tornar a propriedade rentável, mas, como destacou, o futuro da casa será decidido pelos sócios em Assembleia-Geral.

Esta deveria ter-se realizado em Março mas teve que ser adiada devido à pandemia, estando agora prevista para breve, indicou.

Também a Associação Migrante de Barcelos (AMB) voltou a abrir este mês, no dia 14, "para quem queira beber um café ou uma cerveja" diz-nos o seu presidente, Vítor Santos.

Embora a clientela não tenha correspondido, a intenção para já é continuarem a abrir às sextas-feiras.

Em termos financeiros, Vítor Santos reconhece que a colectividade começa a sentir a pressão destes meses todos em que esteve parada pelo que antes do fim do ano talvez tenha de vir a recorrer a uma hipoteca para cobrir as despesas correntes.

Como explica, os eventos que normalmente organizam e que são a principal fonte de receitas foram cancelados, mas a par disso sente que não pode ainda abordar os patrocinadores pois também eles atravessam dificuldades pelo que, admite, "estamos a ficar em maus lençóis".

No entanto, gostaria de levar avante a Festa de São Martinho, cozinhando os tradicionais rojões e papas de sarrabulho por encomenda para take-out, o que espera venha a gerar algum interesse e receitas para o clube.

Por seu turno, a Casa da Madeira de Toronto (CMT) tem estado completamente encerrada, apenas cedendo as instalações a uma organização que utilizou a cozinha do clube para confeccionar uma feijoada que ofereceu em regime de take-out.

Entretanto, os voluntários desta colectividade estão a proceder a uma limpeza do parque que a CMT tem na região de Georgina e que é habitualmente um dos grandes pontos de congregação dos sócios.

Actualmente o número de pessoas que podem juntar-se no parque está limitado a uma centena, mas o presidente da CMT, Luís Bettencourt, diz-nos que continua a ser possível desfrutar daquele aprazível espaço verde, embora seja desejável que os interessados façam reserva antecipada precisamente para poderem cumprir com essa regra e para que não fiquem desapontados ao aparecerem de surpresa.

Entretanto, é possível que no final de Setembro se venham a realizar as festas da Vindima e da Juventude nesses moldes, mas, como adianta, é algo que ainda está para ser visto.

A nível financeiro, a CMT preparava-se para fazer algumas obras, pelo que as verbas que tinham sido amealhadas para esse fim têm servido para colmatar a falta de receitas destes meses em que tem estado encerrada e os sócios estão para pagar as suas cotas, o que Luís Bettencourt espera venha ajudar a aliviar um pouco a pressão.

O Arsenal do Minho foi outra colectividade que passou a abrir às sextas-feiras, ainda que com uma capacidade mínima, para as pessoas que jogam cartas, segundo refere o líder daquela colectividade minhota, Joel Bastos.

Os visitantes têm que cumprir com as directrizes que exigem o uso de máscara, medição de temperatura e preenchimento de formulários de presença, e embora o clube continue a não ter ensaios do rancho folclórico está a ser ponderada a possibilidade de voltar a oferecer aulas de zumba a cerca de uma dezena de pessoas, por forma a que possa haver o necessário distanciamento entre elas.

Financeiramente, Joel Bastos indica que houve contenção de despesas, nomeadamente a suspensão do contrato com a empresa de recolha do lixo, e que a empresa telefónica Bell também facilitou, por isso o clube vai-se mantendo.

Noutra organização minhota, a Associação Cultural do Minho de Toronto (ACMT), a sua relações públicas, Olívia Rites, confessa já ter saudades de ouvir as concertinas e de poder cantar com os sócios, mas por enquanto a colectividade permanece encerrada.

Contudo, como esclarece, está para realizar-se uma reunião para decidir se voltará a abrir já em Setembro.

Segundo aquela dirigente, em termos financeiros a ACMT está numa posição confortável pois é dona do edifício onde está sedeada, tem fundos amealhados e a renda proveniente do aluguer do apartamento no andar superior vai ajudando às despesas, pelo que se vai mantendo sem dificuldades de maior.

Também a Casa dos Poveiros de Toronto tem estado encerrada e, tal como a maioria das outras colectividades, não tem planos de prosseguir com eventos agendados para este ano, segundo os seus responsáveis.

A agremiação tem, no entanto, o salão alugado para duas festas particulares com menos de 50 pessoas cada, uma das formas como procura obter verbas para cumprir com as suas obrigações financeiras.

Tendo apenas realizado dois eventos este ano, a presidente da colectividade poveira, Linda Correia, reconhece que as finanças da casa estão esticadas, mas diz-se muito grata aos senhorios do prédio onde a sede está instalada, Hélder e Joe Costa, proprietários da rede de padarias Caldense, que têm ajudado com a renda.

Entretanto, no Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM) estão a envidar-se esforços no sentido de reactivar o clube.

O gás foi fechado como medida de segurança, devido ao encerramento prolongado da sede, mas os seus responsáveis indicam estar a estudar a possibilidade de realizarem um torneio de golfe, em formato reduzido e com apenas 100 pessoas, cujo almoço seria servido numa esplanada montada no parque de estacionamento.

"Não vou dizer que estamos bem, porque não estamos, mas estamos a tentar chegar a uma boa situação e quando nos derem a luz verde vamos ter de trabalhar mais do que trabalhávamos para poder trazer o clube novamente para onde estava", diz-nos Tony de Sousa, que preside ao CCPM.

A crise foi profunda e na sua avaliação estima que até 2022 todos os esforços serão no sentido de repor a condição do clube.


Voltar a Sol Português