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Em Toronto e Mississauga:

Carnaval comemorou-se com danças e bailinhos
à moda da Terceira

Por João Vicente e Noémia Gomes
Sol Português

Se o Carnaval ganhou fama mundial devido aos enormes festejos realizados no Brasil, a verdade é que é uma festa secular celebrada em muitas nações, não sendo Portugal uma excepção. Com contornos muito característicos, esta festa realiza-se nas diversas freguesias da ilha Terceira, nos Açores, e é essa versão que mais se vai popularizando por cá, em parte devido à enorme comunidade oriunda dessa região autónoma, mas também pela boa aceitação que tem junto da comunidade em geral.

Não é, portanto, de estranhar, que no pretérito fim-de-semana (22 e 23) tenham actuado oito grupos de danças carnavalescas em seis colectividades de Toronto e em duas de Mississauga.

Além dos conjuntos já mencionados, viajou para actuar nos Estados Unidos da América o Grupo de Espada de Toronto, com o apoio dos Amigos da Terceira.

O grupo Amigos da Terceira, apoiou financeiramente 10 grupos carnavalescos – incluindo o grupo Bailinho Alta Sociedade, da Terceira – com 500 dólares a cada um, e deram ainda apoio logístico para que pudessem actuar nas diferentes colectividades. Foram elas as Casas do Alentejo, da Madeira e dos Açores; os clubes do Graciosa, Sporting e Sta. Helena; do Centro Cultural Português de Mississauga e St. John's Hall, também nesta cidade.

A reportagem do jornal Sol Português acompanhou estes grupos em duas colectividades: a Casa do Alentejo de Toronto e a Casa dos Açores do Ontário.

Danças Carnavalescas na Casa do Alentejo de Toronto

No passado sábado (22), o "Bailinho da Banda do Senhor Santo Cristo" – de seus mestres Jonathan e Adriano Silva – inaugurou o palco da Casa do Alentejo de Toronto (CAT) com o tema "O Jogo do Throne", com letras e músicas concebidas e interpretadas pelos 25 membros do grupo.

Seguiu-se o "Grupo dos Amigos do Carnaval de Toronto", que apresentou o tema "O Dia dos Amigos", onde o assunto e as cantigas de João Mendonça foram musicadas e arranjadas pelos 28 elementos do grupo, assim como por Adriano Silva e Brian Pacheco. O mestre responsável foi Artur de Freitas, que também foi mestre juntamente com Sandra Silva.

O grupo "Bailinho de Oakville" apresentou um enredo intitulado "As Agonias da Tia Belinda", concebido por Ramiro Antunes, com música e arranjos do grupo de 13 elementos, cujo mestre foi Celso Rocha e as ensaiadoras Bernice e Radija Rocha.

O "Grupo de Jovens das Tradições da Terceira", com Nelson da Silva como responsável e as mestres Alexa Sarmento, Lisa da Silva e Amanda Correiro, apresentou o tema "Se Precisa de Trabalho", concebido por Lisa da Silva, com cantigas por Dália Machado, música e arranjos por João Freitas e Nelson da Silva e papel de música por Adriano Silva.

Este espectáculo teve a apresentação do mestre de cerimónias Manuel Silva.

Terminada a actuação do último grupo, já rondava as 23h30, a festa continuou pela madrugada dentro e a todos a audiência presente recebeu calorosamente com bastantes gargalhadas e fortes aplauso.

Entretanto nas outras colectividades estas cenas de alegria iam-se repetindo conforme os grupos iam transitando entre elas.

Carnaval Terceirence na Casa dos Açores do Ontário

O Grupo Pérolas do Atlântico foi o anfitrião na Casa dos Açores do Ontário (CAO) que, à semelhança de outros clubes, abriu as suas portas no passado sábado (22) para receber as danças de Carnaval à moda da Terceira.

Um dos primeiros grupos a que a nossa reportagem assistiu foi o "Grupo dos Amigos das Tradições Terceirenses José Ramos", dança de varinha que teve como mestres responsáveis Roberto Picanço e José Ramos.

O assunto "Não há um sem dois" foi liderado por Emanuel Ramos, Raul Picanço e Vitória Almeida, com assunto e cantigas de Roberto Picanço e música e arranjos de Emanuel Ramos.

Constituído por 11 elementos, o grupo apresentou uma comédia em que o assunto revolveu em torno dos `indígenas', onde o homem branco leva o índio "galinha sem ovo" para a cidade e dessa viajem nascem resultados hilariantes. Não faltaram também as sátiras dirigidas ao Sporting e ao Benfica e ao índio vigilante chamado "aldrabão Trump".

Seguiu-se a dança de varinha do Centro Cultural Português de Mississauga, de responsabilidade de Roger Mendes, onde o enredo "A verdade vem sempre ao de cima" foi puxada por Sabrina e Arianna Mendes. O assunto e letra desta peça esteve ao encargo de Rui Garcia e José Fernandes, com música e arranjos do próprio grupo, que totalizou um total de 34 figurantes.

Com um entrecho bastante espirituoso, esta peça revolveu à volta de dois casais brancos que esperavam o nascimento de seus filhos, mas que ficam surpresos quando as crianças nascem negras. Por coincidência, o padre da freguesia também era da mesma cor. Este acontecimento leva à especulação e a acusações de quem será o pai destes `rebentos', acontecimento este que se torna ainda mais caricato quando aparece uma outra mulher branca com filhos negros.

No final, e porque "A verdade vem sempre ao de cima", descobre-se que o sacristão, levado a palco por Mathew Salvador, era realmente o progenitor das crianças. O padre, que por sinal era mudo, tinha aproveitado a situação aquando de um corte de luz, rendendo-se aos prazeres da carne.

A seguinte dança de pandeiro foi trazida pelo "Grupo Original Amigos do Carnaval de Toronto", onde o mestre responsável Rui Soveta trouxe ao palco o assunto "Os modernos e os antigos", puxada por Ronaldo Homem e com o assunto e cantigas escritos por João Mendonça e Joe Esteves.

Com música e arranjos ao encargo do grupo composto por 29 elementos, apresentaram a vida de antigamente, onde a comida não abundava e os filhos eram muitos, em comparação com os dias de hoje, onde todos tudo têm, mas estão sempre à espera de mais.

Referência ainda, em estilo de sátira, às touradas no Canadá, assim como ao facto de que as pessoas aderem cada vez menos aos clubes para ver as danças, ao contrário do que faziam antigamente, preferindo ficar em casa a assistir às danças da Terceira através da plataforma YouTube.

A última dança a que assistimos foi a da "Casa dos Açores – Banda Lira de Brampton", liderada pelo mestre José Maria Lima, com o assunto "Carnaval de Toronto". O assunto e a letra estiveram a cargo de João Mendonça e a música e arranjos do próprio grupo, constituído por 33 figurantes.

Com base nas danças à moda antiga, esta peça incluiu um "ratão" interpretado por Rogério Mendes e reflectiu o Carnaval celebrado em Toronto nos momentos presentes em paralelo com as gerações passadas. Lembraram o primeiro bailinho de Carnaval, os mestres e organizadores anteriores, como os "Ramiros" ou os "Magalhães", assim como a glória dos clubes na década de '90 que enchiam para celebrar este evento.

Agremiações como o Lusitânia, o Angrense ou o Vasco da Gama celebravam, à altura, o Carnaval terceirence com a sua devida grandeza. Lamentaram ainda que a essência desta festa esteja a morrer no Canadá.

Este último foi um bailinho tradicional, com uma bonita coreografia e letra e um `ratão' de classe.

No fim de cada dança foi oferecido uma lembrança a cada grupo para ajudar a custear as despesas desta tradição terceirense.


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