PENA & LÁPIS


Correspondente do Brasil:

Racismo: Como se tornou uma monstruosidade

Por Francisco G. Amorim

Sol Português

Tanto se tem falado de racismo que parece que se pode concluir que o termo e a prática de racismo começaram quando os europeus decidiram que o mundo novo lhes poderia pertencer.

Já havia escravidão, desde tempos imemoriais – escravos de peles de todas as tonalidades – até que se constatou que ir buscar gente a África, a sul da Etiópia, pelo Índico, pelos árabes era bom negócio.

O negócio floresceu e fez com que aumentassem as guerras entre povos diferentes, por o escravo ser bom negócio para exportar para a Arábia.

Por aqui começa a distinção quando os árabes começam a chamar aos povos a sul da Etiópia de Kafir – cafres = infiéis – e traficam neles à vontade.

Depois chegam os europeus – e há que fazer distinção entre portugueses e os outros europeus, aqueles porque foram comerciar, os outros para colonizar, ocupar, desprezar os povos ainda em estado semi-primitivo ou mesmo um pouco mais avançados, como Índia, Indonésia e até a China.

Os portugueses começaram por tratar de irmãos os reis de África e os rajás da Índia, tentaram cristianizar Cipango e Catay, mas até nisso o lado humano da inveja entre missionários se sobrepôs à cristianização, e de lá foram corridos.

Espanhóis na América Central e andina, franceses, italianos, belgas, holandeses e sobretudo ingleses decidiram apropriar-se do Novo Mundo. Não se pode esquecer o tão elogiado "grande missionário" Livingstone que avisou a Inglaterra que havia mais de 40 milhões de nativos sem sapatos, o que pressuponha um altíssimo negócio a fazer! Um homem que parece ter lutado contra a escravatura mas abriu as portas para o mais profundo racismo.

Até a Suíça, Noruega e Suécia entraram no negócio da escravatura!

Mas os grandes campeões da submissão à bala e à fome foram os britânicos, os que mais escravizaram e dizimaram na América do Norte (não esquecer o Canadá), África, Ásia e Oceania.

Auto-denominaram-se "seres superiores" e jogaram no lixo aqueles a quem desprezaram chamando-os "inferiores". Criaram raças diferenciadas e o racismo atingiu desprezo e vergonha jamais sonhados.

Ainda hoje o racismo é tão latente que até no preenchimento de um documento oficial do NHS – Serviço Nacional de Saúde britânico – sobre a Covid-19, se faz vergonhosa distinção – repito, oficial – de "Raças", destacando os "White British", quando a palavra "raça" foi há muito banida quando se refere a humanos!

Li agora dois livros que são de uma eloquência feroz e nos deixam o coração a bater forte, quase a nos fazer jurar vingança sobre o que, sobretudo ingleses, belgas e franceses, fizeram aos povos que submeteram durante tantos anos e que levou enorme riqueza àqueles reinos. O que roubaram, como roubaram, como mataram, como o fizeram com o maior sangue frio e quase desportivamente!

Conclui um dos autores que tanto eles foram mestres na limpeza racial que ensinaram até os alemães, isentos de colonialismo até aos finais do século XIX, a ocupar terras de gente simples, a dizimar os seus povos, hereros e hamaquas, o que serviu de argumento até para o Holocasto. Aqui eram os arianos e os outros. Todos.

Embutiram nas suas cabeças que, sendo superiores, poderiam e deviam liquidar os inferiores. Era já hábito com outros povos!

Um dos livros abre com duas pequenas citações:

"All the Jews and Negroes ought really to be exterminated. We shall be victorious. The other races will disappear and die out." – White Aryan Resistance, Sweden, 1991

O WAR foi um movimento super racista criado pela Ku Klux Klan que se espalhou por muitos países e ainda vigorava na Suécia – na Suécia! – em 1991 e mentalizou os neo-nazistas.

"You may wipe us out, but the children of the stars can never be dogs" – Somabulano, Rhodesia, 1896

Somabulano foi um líder africano na Rodésia, hoje Zâmbia ou Malawi, na resposta à ocupação e domínio britânico.

O conceito é simples: o direito das "raças superiores" a aniquilar as "raças inferiores". O direito divino de matar. A Europa "iluminada" que exterminou povos inteiros em todas as latitudes dos quatro continentes, em nome da civilização.

O afã de riqueza, ganância, orgulho idiota, arrogantemente estimulado pela grande rainha Victoria, transformada em imperatriz das Índias, com invenção de justificativas políticas, filosóficas e científicas para endossar o extermínio massivo de todos os "selvagens". Sobretudo justificativas comerciais, financeiras.

Um dos livros, lançado em Fevereiro de 1899 por Josef Conrad, "Heart Of Darkness" (existe em língua portuguesa – O Coração das Trevas) conta a história de um marinheiro que é enviado ao Congo durante o mais que criminoso tempo do rei dos belgas para ir buscar um grande negociante de marfim, chamado Kurtz, um assassino impiedoso e ladrão de marfim! Um homem que dominava vasta região de África e que pouco antes de morrer teve este desabafo: "Exterminai todos os selvagens".

Mais tarde, Sven Lindquist, em 1992, publica o livro "Exterminate All The Brutes". Ele, obcecado pela frase de Kurtz, percorre a África Central e vai recolhendo histórias das passagens dos exterminadores por aquele continente e não só.

Os livros são difíceis de ler. Não há quem não se emocione e se enraiveça com a História que contam e repõem, nua e crua. Ambos são dolorosos documentos da bestialidade humana.

E os exterminadores que andaram pelo mundo a dizimar povos ao regressarem aos seus países eram recebidos como heróis, condecorados, nobilitados. Até Churchill por lá andou em matanças desproporcionadas.

Acabaram os extermínios? Nem pensar. Procurem saber o que se passa hoje em dia com os uigures. Até na Ucrânia. Ou o que fizeram os muçulmanos em Bangladesh. Recordem o Kosovo, Ruanda. Um pouco para trás, a Arménia, Circássia, Chechênia, Angola, Moçambique, Cambodja, Holodomor e – infelizmente – etc.

Diz a Bíblia que Deus fez o mundo todo bonito e depois fez o homem. Estava cansado e descansou. Esqueceu-se de lhe dizer que se comportasse como os animais ditos irracionais, que não matam por orgulho ou ganância.

Parece impossível! Como Deus, Omnipotente, Omnisciente e Omnipresente, se esqueceu disso! Será que estará a assistir a tudo isto e não consegue ou não quer fazer nada? Deixou de ser Omnipotente? Não vale mais a pena, quando estivermos aflitos, dizer "Valha-nos Deus".

Mas deixemos a teologia para outros escritos. Basta-nos ficarmos horrorizados ao aprofundarmos o nosso conhecimento sobre o que pouco se fala. Fiquemos com uma frase da canção "O Progresso", de Roberto Carlos: "Eu queria ser civilizado como os animais!"

www.fgamorim.blogspot.com


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