PENA & LÁPIS


Não deixemos os cravos murcharem:

As Novas Madrugadas na Diáspora portuguesa

"Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu

dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível."

– Zeca Afonso (1933-1987)

***

Por Diniz Borges

Sol Português

Celeste Caeiro, funcionária do restaurante Franjinhas em Lisboa, provavelmente jamais imaginaria que a sua iniciativa de dar cravos, em vez de cigarros, às tropas que percorriam as ruas da capital seria para sempre o símbolo da revolução de 25 de Abril.

Tal como muitos imigrantes portugueses e os seus descendentes a viverem nos Estados Unidos, entre eles os meus pais, o meu irmão e eu próprio, não imaginaríamos sintonizar o telejornal da rede televisiva CBS com Walter Cronkite, um dos noticiários mais vistos e respeitados da televisão americana, e víssemos a abertura do mesmo com notícias de uma revolta militar no nosso país, o mesmo país de "brandos costumes", como nos tinham dito, repetidamente.

O símbolo do cravo vermelho tem prevalecido. E os valores da Revolução? Continuarão? Em Portugal, e na Diáspora Portuguesa da América do Norte? Como é que um povo integrado no "mainstream" americano, que ainda mantém os seus laços culturais e históricos com um país que surpreendeu o mundo, poderá não só comemorar, mas acima de tudo viver o que a NBC News, numa peça para o 40.º aniversário em 2014, descreveu como "o golpe militar mais fixe do mundo"?

Porque "o passado nunca está morto. Nem sequer é passado", como William Faulkner eloquentemente escreveu, só podemos olhar para as Novas Madrugadas que ainda são possíveis para a Diáspora Portuguesa nos Estados Unidos reflectindo no que aconteceu e como éramos há quase meio-século.

Há quarenta e oito anos, as comunidades luso-americanas, embora já com mais de um século de existência, ainda estavam cheias de imigrantes recém-chegados. As duas décadas que precederam a Revolução dos Cravos foram marcados por um dos maiores êxodos de imigração para os Estados Unidos em todo o século XX, particularmente da actual Região Autónoma dos Açores, mas também da Região Autónoma da Madeira e do norte de Portugal continental.

A Diáspora estava a ser reconstruida com esses recém-chegados que trouxeram a língua, a qual estava a ficar esquecida pelas gerações anteriores, revigorando algumas tradições que tinham mudado com o tempo, a geografia, e as políticas da eterna aposta americana do "melting pot".

As comunidades, mesmo as mais recentes, eram o produto de um regime fascista cujas políticas significavam pobreza, fome, analfabetismo e doença. Um regime que impunha o trabalho infantil, dominava as mulheres e era o poder sustentador de meia dúzia de famílias milionárias e de algumas outras famílias escolhidas. Um estado corrupto que censurou e subjugou a maior parte da população. Um regime que exilou, torturou e matou.

Embora isto e muito mais tenha caracterizado a ditadura que infligiu Portugal por mais de quatro décadas, com a sempre benevolente bênção, ou pressão muito mole das sucessivas administrações americanas, fez com que as comunidades, de natureza conservadora, pela história e pelas circunstâncias que lhes foram impostas na Mãe-Pátria, e a necessidade de se integrarem no Novo Mundo, vissem – e ainda quiçá se ainda vêem – a Revolução dos Cravos com alguma ambiguidade.

As semanas, meses e primeiros anos após a Revolução do 25 de Abril nas comunidades portuguesas nos Estados Unidos – ou colónias portuguesas, como alguns locutores da rádio local portuguesa na Califórnia as chamavam – continham uma amálgama de ocorrências que directa e indirectamente nos mostram o sentimento dentro das mesmas: uma mistura de júbilo pela nova democracia que estava a ser construída, com todos os sofrimentos e desafios que tal esforço teria, lado a lado com os "velhos do Restelo" que ainda hoje existem, e que se agarraram à nostalgia de uma sociedade "perfeita" que nunca existiu, e à sensação imperialista que Salazar e Caetano tentaram manter na idiossincrasia portuguesa.

Lembro-me de uma boa amiga e colega, Lúcia Noia, que com a Revolução mudou o nome do seu popular programa de rádio de "Sol de Portugal" para "Portugal Novo", uma modificação que não foi bem recebida por muitos dos seus ouvintes e patrocinadores.

Nestas mesmas comunidades, em ambas as costas dos EUA, a Frente de Libertação dos Açores (FLA) conseguiu ganhar algum terreno e obter algum apoio, como resultado da natureza conservadora e da ambivalência que os imigrantes, especialmente os oriundos de uma onda emigratória muito antes do 25 de Abril sentiram em relação aos ideais da Revolução. Uma situação que, em parte, foi exacerbada pelas histórias conflituosas na grande imprensa americana, nomeadamente o chamado "susto vermelho", a acontecer em anos de alguma tensão nos ditos interesses económicos para os EUA, as Democracias Ocidentais em particular no relacionamento com a União Soviética e a China.

Como Portugal mudou, por osmose e pela evolução étnica nos EUA, as vivências luso-americanas também mudaram. As Novas Madrugadas que estão ao alcance da nossa Diáspora nos EUA terão de basear-se nos valores de Abril: um Portugal mais livre, mais democrático, mais desenvolvido, mais justo, e mais unificado, significa uma diáspora muito mais criativa, justa e robusta.

De acordo com o censo dos EUA e as novas estimativas do American Community Survey (um serviço do censo americano) baseadas em números de 2016 a 2020, e recentemente relatados por Dulce Maria Scott, oriunda dos Açores, professora e presidente do Departamento de Trabalho Social, Justiça Criminal e Ciência da Família na Universidade Anderson em Illinois, temos pouco menos de 1,4 milhões de americanos que reivindicaram ascendência portuguesa - exactamente 1.363.964. Destes, 41% afirmam ser de uma única ascendência (portuguesa) e 59% relataram múltiplos antepassados.

Esta é a face da nova Diáspora Portuguesa nos EUA. Uma diáspora multi-étnica, multirracial, multicultural, que através de um novo paradigma, que deve abranger a tradição e a inovação, pode certamente manter a sua identidade ou conjunto de identidades muito distintas. Para alcançar as Novas Madrugadas, com a perduração dos cravos vermelhos, a Diáspora tem de se organizar, romper com o que o poeta Manuel Alegre chamou: "tanta cebola a fazer de flor".

Essas madrugadas inovadoras estão ao nosso alcance como americanos de ascendência portuguesa, mas só podem ser construídas se a Diáspora e Portugal trabalharem em conjunto.

Na Diáspora portuguesa nos Estados Unidos há uma necessidade urgente de ir além da efémera Festa e da celebração do vinho e do bailarico com linguiça, queijo e mal-assadas (apesar de gostar de toda esta gastronomia), e construir-se um capital social muito necessário, juntamente com estruturas educativas e culturais dentro da academia e na sociedade em geral.

Em Portugal há uma necessidade crucial de voltar-se a olhar para a Diáspora com o compromisso de abolirmos os eternos estereótipos e erguermos uma nova relação transatlântica, firmemente alicerçada na riqueza de conhecimentos e recursos que estão presentes na Diáspora Portuguesa nos EUA.

Como um dos arquitectos da Revolução Vasco Gonçalves disse algures: "Não se pode encher a boca com democracia, socialismo e liberdade e ao mesmo tempo ter acções salpicadas de tinta salazarista". Se assim for, mostramos falta de carácter, rispidez e arrogância.

As Novas Madrugadas apenas serão frutíferas e perduráveis, para Portugal e para a nossa Diáspora nos EUA, se a nossa Diáspora for capaz de exercer uma cidadania empenhada, uma cidadania que se baseie nas vitórias democráticas e sociais que chegaram a Portugal com a Revolução dos Cravos. Uma cidadania dedicada a todas as formas de cultura em Portugal e na Diáspora, e que em uníssono se forme uma nova ponte composta por uma verdadeira via com dois sentidos.

Na era da tecnologia existe ainda um espantoso desconhecimento em ambos os lados do Atlântico. Estes só podem ser ultrapassados se os valores de Abril estiverem ao alcance de todos. Se democratizarmos a cultura e as oportunidades educativas. Se em Portugal começarmos a acreditar no poder da Diáspora e na Diáspora questionarmos, constante e consistentemente, as hierarquias verticais e as políticas desajustadas que nos afectam.

Citando de novo, o poeta Manuel Alegre: "Pois falta aqui o verbo ser. E sobra o ter. / Falta a sobra e sobra a falta. Ó proletários da tristeza / falta a ciência mais exacta: a poesia". A poesia como a ciência exacta que diz a verdade que demasiadas vezes tem sido escondida por detrás de estratégias obscuras compostas por ganâncias pessoais, delírios políticos, e esquecimento absoluto.

As Novas Madrugadas no seio das vivências luso-americanas devem abranger um plano ambicioso para tornar a Revolução dos Cravos parte da experiência luso-americana. É inconcebível que The World's Coolest Military Coup (o golpe de estado mais fixe do mundo), como nos disse a manchete da NBC News, não faça parte do currículo para os estudantes das escolas primárias e secundárias dos Estados Unidos, que estão em cursos de língua e culturas portuguesas, para além do que o dedicado professor de sala de aula ainda faz, isoladamente.

Todos os anos, os professores recebem links para sites em Portugal que não são relevantes para a experiência luso-americana e que fazem com que Portugal se sinta com missão cumprida. A criação de um grupo de educadores americanos, com ascendência portuguesa, e peritos no ensino das línguas, das ciências sociais e de estudos étnicos, entre outros, poderia desenvolver uma série de planos para o professor de língua portuguesa, baseados na aquisição de uma segunda língua que fossem culturalmente relevantes, trazendo os Valores de Abril para a sala de aula do mundo americano. Mas isso só pode acontecer quando Portugal acreditar na sua Diáspora e a Diáspora tiver a coragem para ir além do momento fotográfico perfeito que, na realidade, raramente é assim tão perfeito.

Na educação, nas ciências, nas artes, no empreendedorismo, na tecnologia, na agricultura, na política e no capital social, a Diáspora Portuguesa na América do Norte é um património imperdível para Portugal. As Novas Madrugadas estão aqui à nossa beira. O cravo vermelho só perdurará se tivermos a visão e a coragem de irmos além de paradigmas e conceitos totalmente ultrapassados, se nós, na Diáspora, tivermos a capacidade de trazer Portugal, o poder em Portugal, e se não conseguirmos o poder então a sociedade civil para as realidades deste novo rumo que tanto precisamos.

Já foi dito, e repetido variadíssimas vezes, que Abril pertence ao povo. Foi a força do povo que o construiu; será a força do povo que o consolidará, tanto em Portugal como na diáspora luso-americana.

Natália Correia magistralmente escreveu: "o que é que ficou da Revolução do 25 de Abril? Ficou uma grande disponibilidade para as pessoas se organizarem." É tempo de começarmos a trabalhar. Os cravos vermelhos não podem murchar.


Voltar a Pena & Lápis


Voltar a Sol Português