PENA & LÁPIS


Folclore:

Projecto Raízes e Identidades

Por Lino Mendes

Sol Português

Quando se fala na degradação crescente do Folclore, não se pode ignorar a RTP que, podendo ter um papel um tanto ou quanto decisivo para o seu conhecimento, vai deitando achas na fogueira que o vai consumindo.

Pelo que me apercebo, não há por lá quem perceba ou queira perceber de Folclore. Aliás, eu não consigo entender como são criadas estas situações negativas. É por isso urgente que seja criado um "espaço pedagógico". Mas da responsabilidade de quem? Normalmente diria que da Federação, mas não neste momento em que a mesma considera que PCI é uma área abrangida pelo folclore/cultura tradicional e popular e vice-versa.

"Mas a RTP leva aos seus programas muitos grupos de folclore!", dirão alguns. Certo, e isso que é sempre bom para os grupos pode não o ser para o Folclore. Vejamos alguns exemplos:

Numa das vezes que o Rancho de Montargil esteve na RTP, o apresentador olhou para o mesmo e de imediato disse "o vosso grupo está bem trajado". E todo o mundo ficou a saber que o grupo de Montargil estava bem trajado, mas ele disse o que não sabia. Simplesmente gostou do que viu.

Outras vezes são os pelouros de alguns municípios que, ignorando a matéria, indicam grupos que não têm representatividade. E era simples desmascarar tais intrusos com umas simples questões: "Qual é a vossa área etnográfica?", "explique-nos lá estes trajos" ou "como fizeram a vossa pesquisa?"

Comigo aconteceu perguntarem-me se um dos meus objectivos era que o meu grupo fosse considerado "Património Cultural Imaterial da Humanidade" e telefonicamente solicitaram-me que não me esquecesse do nome dos autores das músicas. Ora para quem não saiba, o Folclore e o Património da Humanidade são patrimónios que se opõem enquanto as músicas tradicionais são de autores desconhecidos.

E lá vem a questão muito pertinente: "como estará o nosso folclore daqui a 50 ou 100 anos?" Por este caminho, já não terá nada a ver connosco. E reparem que a questão não é "como estará o folclore daqui a 50 ou 100 anos?" mas "como estará o NOSSO folclore daqui a 50 ou 100 anos?"

O mesmo fixou-se e não mais evoluiu quando o progresso veio abrir as portas à globalização. E por que não mais evoluiu? Porque ao contrário do que muitos pensam, o folclore nessa altura é o mesmo que hoje temos, pois que a sua evolução, como tal, parou quando em contacto com valores que nada tinham a ver com a maneira de ser e de estar das pessoas.

E termino com a credível opinião do Dr. Aurélio Lopes:

"Assim – isto depois de uma cuidada análise – seja daqui a cem anos, seja a duzentos, aquilo que, de acordo com o conceito vigente, podemos apresentar num grupo folclórico são as mesmas vivências que hoje apresentamos. Cada vez é claro, mais distante no tempo.

Na verdade, aquilo que hoje fazemos numa aldeia, vila ou cidade, não possui características para ser incluído no, hoje aceite, conceito de folclore!

Não constituem formas locais e tradicionais de fazer as coisas.

Não resultam (não foram moldadas) por essa usualidade local.

São cada vez mais iguais a todas as outras; de outras localidades, regiões, nações, etc.,…

São efémeras e heterogéneas (cíclicas muitas vezes) e são testemunhos de formas de viver semelhantes e prolongadas no tempo; leia-se, representativas das respectivas épocas."


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