PENA & LÁPIS


Folhetim:

Não tinha comparação!

Por Jorge Moreira Leonardo

Sol Português

Há já longos anos (cerca de 70), passei umas maravilhosas férias na encantadora freguesia das Cinco Ribeiras (a freguesia branca), em casa dum lavrador que, não sendo rico, possuía no entanto, em abundância, os seus amanhos de casa e até as posses para pagar a uma criada que tinha como função as tarefas domésticas mais pesadas, pois a sua senhora, D.ª Delfina, apesar de ser uma excelente dona de casa, sofria duma doença do coração que a impedia de tudo fazer com a sua própria mão, como gostaria.

Pode parecer estranho a qualquer adolescente ou jovem de hoje que umas férias passadas numa freguesia, a escassos quilómetros da cidade, tenham entusiasmado tanto um moço de cidade. Mas devo recordar que, ao tempo, a escassez de meios de transporte, permitia um corte com o bulício citadino que, actualmente, não se consegue.

Em qualquer canada de freguesia rural encontramos hoje mais carros estacionados às portas das casas do que há 70 anos na minha rua de cidade.

Os carros de praça que se deslocavam à minha rua eram quase que exclusivamente para transportar um médico e então nós, os miúdos, pedíamos ao chauffeur que nos deixasse ir no carro até à Praça e depois subíamos a pé duas ladeiras até voltarmos para junto das nossas casas. Só para usufruirmos daquele gostinho.

Acresce que a lavoura de então ainda justificava a designação de actividade em que se empobrece alegremente. Havia pois algo de bucólico que constituía para mim uma novidade: assistir às tarefas diárias, desde o tratar das galinhas, porcos e bezerros, no que participava com alegria; assistir à ordenha das vacas e beber uma caneca de leite, acabadinha de sair da teta. Isto no Verão, pois claro! No Inverno, o bucolismo quase desaparece.

O convite partiu de um meu condiscípulo no Ensino Técnico, que frequentava para poder escolher outra actividade que não a lavoura. Os pais, pessoas interessadas na felicidade dos filhos, aceitaram a sua decisão pois não queriam sujeitá-lo a algo que o fizesse infeliz. Ademais, o problema da sucessão estava assegurado pois o filho mais velho já de há muito que a assumira. O sucesso alcançado na vida por esse meu amigo é a prova de que assumiu a decisão correcta.

Mas não é esse ex-colega, mas, graças a Deus, ainda amigo, a principal personagem desta história. Esse lugar pertence, inteirinho, exactamente à criada, Maria Mendes, boa alma, mas boçal, muito boçal mesmo.

Tinha um jeito de dizer as coisas, no entender de D.ª Delfina, pouco próprio, principalmente naqueles dias em que estava lá em casa um menino da cidade...

(continua na próxima edição)


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