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Canadá/Covid-19:Trudeau aconselha canadianos a não viajarem

Ford pede proibição de voos internacionais de vários países, incluindo Portugal e Brasil

O número de casos de Covid-19 detectados em todo o mundo desde o início da pandemia ultrapassa já os 100 milhões, acrescidos por 4,2 milhões de infecções na última semana – menos 500.000 do que no período anterior, embora o número de óbitos fosse inusitadamente alto, com 100.000 mortes a elevarem o total até à data para 2,14 milhões.

Entretanto, 71,8 milhões de pessoas superaram já a doença, o que elevou a taxa de recuperação mundial para 71,7 por cento.

A nível nacional os casos foram acrescidos por mais 37.400 infecções no espaço de uma semana, o valor mais baixo dos últimos dois meses, o que parece sugerir o abrandamento do ritmo da infecção.

Dos cerca de 750.000 casos detectados no Canadá desde o início da pandemia, 89,1 por cento (668.000) superaram já a doença enquanto que os óbitos ascendem a 18.180, 1.100 dos quais nos últimos sete dias.

Na passada quarta-feira (20), enquanto Portugal registava a média de infecções semanais mais alta do mundo e a segunda maior taxa de mortalidade per capita, no Canadá as duas províncias mais atingidas pelo coronavírus – Ontário e Quebeque – começavam a ver o número de infecções decrescer ligeiramente pela primeira vez desde o início da segunda vaga da pandemia.

Nem tudo é positivo e até àquela data só cerca de metade dos residentes nos lares da terceira-idade no Ontário tinham sido inoculados com as duas doses contra a Covid-19, alimentando o receio dos médicos de que o número de mortes nestas instituições pudesse vir a ultrapassar as que ocorreram durante da primeira vaga.

O primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, continuou a alertar para a falta de vacinas, mas a presidente da Associação Médica do Ontário (OMA, na sigla em inglês), dra. Samantha Hill, ressaltou o facto de haver também muita relutância da parte do público em ser inoculado.

A médica revelou que uma recente análise a 65.000 mensagens trocadas entre ontarienses demonstra que as teorias acerca da origem do coronavírus e o receio de que as vacinas sejam perigosas e não tenham sido testadas adequadamente são particularmente comuns entre as pessoas com menos de 35 anos, embora o que a OMA considera ser "desinformação perigosa" abranja todas as faixas etárias.

Segundo advertiu, qualquer demora no processo de vacinação implica perda de vidas, quer por as pessoas serem dissuadidas de se vacinar, quer pelos atrasos no fornecimento.

Em Toronto, um projecto que pretendia vacinar pessoas que estão desalojadas e a viver nos 100 abrigos da cidade foi suspenso por falta de vacinas da Pfizer-BioNTech, que já deveriam ter chegado.

O grupo de cientistas, médicos e epidemiologistas que aconselha o primeiro-ministro Doug Ford considera que os lares privados correm maior risco de sofrerem surtos infecciosos e mortes devido à Covid-19 do que os que estão a cargo do governo provincial e não têm fins lucrativos.

Querem, por isso, que o governo melhore as condições nos lares de idosos, nomeadamente sugerindo menos residentes em cada instituição e melhoramento das condições de trabalho dos funcionários, incluindo licença médica remunerada e mais empregados a tempo inteiro.

Este mesmo painel consultivo aconselhou a que se acelerasse o processo de inoculação dos residentes nos lares da terceira-idade, para quem a primeira dose da vacina deveria estar concluída até 31 de Janeiro, por forma a evitar centenas de novas infecções e uma estimativa de mais 115 mortes até ao final de Março.

Apesar das recomendações das autoridades de saúde para a importância de não haver convívios e grandes aglomerações, na véspera (19) a polícia de Toronto autuou múltiplos indivíduos ao responder a várias chamadas que davam conta de ajuntamentos em diferentes pontos da cidade.

Entretanto, o governo federal anunciou que iria prolongar as actuais restrições aplicadas aos viajantes internacionais, salvo os que vêm dos EUA, pelo menos até 21 de Fevereiro.

Na mesma altura, as autoridades de saúde de Barrie anunciavam que testes preliminares indicavam a presença de uma das novas variantes da Covid-19 num surto infeccioso que estava a propagar-se num lar da terceira-idade, situação que classificaram como "preocupante".

Da central de correios de Mississauga veio a notícia de que 121 trabalhadores acusaram infecção com coronavírus enquanto o governo do Ontário anunciou que iria aumentar o número de inspecções aos locais de trabalho, sobretudo nas propriedades rurais e entre os trabalhadores sazonais vindos do estrangeiro, onde têm deflagrado vários surtos.

Em Toronto, o presidente da Câmara, John Tory, apoiou a recomendação dos funcionários da autarquia de voltarem a implementar a iniciativa CaféTO, que permite que bares, cafés e restaurantes coloquem esplanadas nos passeios ou nas ruas.

Se for aprovado, o projecto poderá ser reactivado em Maio, embora a autarquia tenha de aguardar até que os níveis de contágio desçam consideravelmente.

No dia seguinte, quinta-feira (21), a dra. Eileen de Villa, directora dos serviços de saúde de Toronto, indicou que se começam a detectar sinais de melhoria, citando o chamado "valor R", índice que designa o número de pessoas que um portador de vírus se presume venha a infectar e que, pela primeira vez desde há vários meses, desceu para menos de um (0,86) – um valor de um ou mais significa que a infecção está a alastrar.

Apesar disso, a médica enfatizou que é necessário continuar vigilante e obedecer às directrizes dos serviços de saúde para que a situação continue a evoluir no bom sentido.

A nível do Ontário, a província assinalou o quarto dia consecutivo com menos de 3.000 casos diários, altura em que o governo anunciou também novas vagas para pacientes com problemas de saúde mental que serão criadas em 16 hospitais.

Com a semana a chegar ao fim, porém, o Ontário registou sexta-feira (22) mais um recorde mórbido, altura em que o número de mortes durante a segunda vaga de Covid-19 ultrapassou as que ocorrerem durante a primeira vaga.

Nesse dia, o Primeiro-ministro Justin Trudeau avisou os canadianos para não marcarem férias de Primavera e anunciou o envio de dois hospitais de campanha – com capacidade para 200 camas – para aliviar a pressão dos casos de Covid-19 nos hospitais de Toronto.

A directora dos serviços de saúde do Canadá, dra. Theresa Tam, anunciou que até aquele momento tinham sido já detectados 31 casos da variante de Covid-19 que havia inicialmente sido identificada no Reino Unido e três casos da variante encontrada na África do Sul.

Simultaneamente, o Primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anunciava haver indícios de que a variante do Reino Unido poderá ser mais letal do que a estirpe inicial, embora em ambos os casos as vacinas actuais pareçam ser igualmente eficazes em prevenir a doença.

A 23 de Janeiro assinalou-se um ano desde que foi admitido o primeiro paciente com suspeita de Covid-19 no Centro de Ciências Médicas Sunnybrook, em Toronto.

Dois dias depois, o homem de 56 anos, vindo da China, tornar-se-ia oficialmente no "paciente zero" no país quando os testes confirmaram estar infectado com o novo coronavírus.

No triste aniversário, a polícia de Toronto deteve 10 pessoas, sete das quais foram autuadas na sequência duma manifestação anti-confinamento que teve lugar na praça Yonge-Dundas, tendo-se registado idênticas manifestações na Praça Nathan Phillips e junto ao parlamento provincial.

Entretanto, a firma canadiana Spartan Bioscience, que tinha criado um teste rápido para a Covid-19 na Primavera mas teve de o recolher quando o Departamento de Saúde do Canadá expressou preocupações com respeito à "eficácia da zaragatoa patenteada", anunciou estar autorizada a vender o novo teste de diagnóstico que apresenta resultados em apenas uma hora.

Segundo um porta-voz do departamento de Saúde, o dispositivo cumpre agora com todos os requisitos, tanto de segurança como de eficácia.

No domingo (24), os Correios do Canadá confirmaram que foi pedido a 350 dos seus funcionários que trabalham no turno da tarde para se auto-isolarem após a detecção de um surto de Covid-19 na central de distribuição de Mississauga.

No mesmo dia o ministro da Educação do Ontário, Stephen Lecce, anunciou que nas regiões da província menos afectadas pelo coronavírus os alunos iam voltar às aulas presenciais na segunda-feira (25), continuando os restantes com ensino virtual até pelo menos 10 de Fevereiro.

A começar a semana, a ministra das Finanças, Chrystia Freeland, confirmou que o governo federal está a "ponderar seriamente" a adopção de medidas mais restritivas para os viajantes, incluindo isolamento obrigatório num hotel para quem vem do estrangeiro por via área e viajou por motivos considerados "não essenciais".

No Ontário foi anunciada na segunda-feira (25), e passou a estar em vigor dois dias depois, a nova lista de trabalhadores essenciais com direito a creche gratuita para os filhos.

De acordo com o documento, estes incluem os distribuidores de combustíveis e empregados de refinarias; educadores que tenham de trabalhar presencialmente enquanto os filhos têm aulas virtuais; empregados de mercearias e farmácias; camionistas; agricultores e todos os que dão apoio às cadeias de abastecimento agrícola; funcionários que recolhem, transportam, armazenam, processam, eliminam ou reciclam qualquer tipo de lixo ou resíduos; assim como quem trabalha no fabrico ou distribuição de desinfectantes.

O aviso mais directo para que a população em geral deixe de viajar veio na terça-feira (26) quando o Primeiro-ministro Justin Trudeau avisou os canadianos a cancelarem quaisquer planos que tenham para se deslocarem ao estrangeiro ou a outras províncias, indicando estarem prestes a ser adoptadas novas restrições.

Por sua vez, o primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, voltou a apelar ao governo federal para que imponha mais restrições aos viajantes, incluindo a obrigatoriedade de quem vem do estrangeiro se submeter a testes nos aeroportos, depois de um projecto piloto iniciado pela província ter detectado 146 casos de Covid-19 nos 6.800 passageiros que chegaram a Toronto nas últimas duas semanas e aos quais foi administrado o teste.

Doug Ford instou ainda o governo federal a proibir voos vindos de países onde tenham sido detectadas variantes do coronavírus, incluindo do Brasil, onde uma nova estirpe foi recentemente descoberta, e, por associação, de Portugal.

Um grupo de mais de 200 médicos e pesquisadores alertou entretanto o governo do Ontário para a necessidade de tomar medidas para travar o número crescente de mortes nos lares de idosos, classificando a situação de "crise humanitária".

Os activistas continuam a reiterar a sua exigência de que o Ontário acabe com os lares privados para os colocar sob a alçada do governo.

Entretanto, e enquanto continua a agudizar-se a falta de vacinas destinadas ao Canadá, o Primeiro-ministro Justin Trudeau expressou a sua confiança nos fornecimentos vindos da Europa, apesar dos avisos da Comissão Europeia de que pretende impor um "mecanismo de transparência" na exportação de vacinas produzidas em território europeu que, potencialmente, dará prioridade aos países da União Europeia.

Em contrapartida, começaram em Toronto os ensaios clínicos duma nova proposta de vacina contra a Covid-19 produzida pela Providence Therapeutics, de Calgary.

Segundo a empresa canadiana, os 60 indivíduos que participam nos ensaios vão ser acompanhados durante 13 meses, com os primeiros resultados a serem divulgados já em Fevereiro.

Os participantes – voluntários saudáveis, entre os 18 e os 65 anos de idade – foram divididos em quatro grupos de 15 elementos, com três dos grupos a serem inoculados com diferentes doses da vacina e o quarto com um placebo.

A companhia espera poder iniciar uma segunda fase de testes clínicos em Maio, com idosos, crianças e grávidas.

Se tudo correr bem, a vacina – designada PTX-COVID19-B e que, tal como as da Pfizer-BioNtech e Moderna, usa tecnologia de ARN – poderá estar no
mercado até ao final do ano.


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