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Arsenal do Minho:

Fim-de-semana em grande com Noite da Gaita e São João à moda de Braga

Por João Vicente
Sol Português

O ambiente familiar foi o habitual que marca os ensaios semanais do rancho do Arsenal do Minho de Toronto, mas o espírito foi de arraial popular no decorrer da Noite da Gaita que sexta-feira (22) animou a sede, na primeira de duas realizações que este fim-de-semana evocaram as festas de São João à moda de Braga levadas a cabo por esta colectividade.

Sita há cerca de um ano no 3404 da Dundas Street West, a sede do Arsenal começou a registar actividade assim que abriram as portas, por volta das 21h00, e não tardou a que se ouvissem os sons da concertina e dos tambores, a par das vozes da cantadeira e do cantador, e das castanholas manuseadas pelos dançarinos.

Os primeiros a saltarem para o terreiro e a executarem os passos sob o olhar aprovador da assistência foram os mais pequenos.

"Pais, dêem-lhes raízes", dizia a ensaiadora, Fernanda Brás, lembrando que "estas crianças são definitivamente canadianas", mas precisam que lhes sejam dadas "a conhecer as suas origens", tal como aconteceu com ela.

"Eu também vim a descobrir por acaso e é muito bom", acrescenta a ensaiadora bracarense que cresceu no Canadá e só veio a ter contacto com a sua herança cultural quando se envolveu com o Arsenal.

Há uns 20 anos a sua sobrinha queria entrar para o rancho mas os pais não tinham disponibilidade para irem com ela aos ensaios, pelo que a tia encarregou-se disso.

Cinco anos depois, pediram-lhe se tomava conta das crianças e desde então tem estado envolvida como ensaiadora, desenvolvendo uma actividade que começou um pouco por acidente, mas que faz com muito gosto.

Fernanda Brás nota que hoje em dia muitos dos jovens que actuam no rancho e que têm mais de 15 anos vêm por si sós ou com amigos, enquanto que antigamente as famílias também vinham e ajudavam a compor o ambiente, tornando-o mais familiar.

Manter estes jovens envolvidos também se torna mais difícil, com tanta coisa a acontecer na cidade e tantas distracções modernas, e a ensaiadora está convencida que o que ainda os vai segurando são as amizades que criam dentro do grupo.

Por isso mesmo, quando aparecem nos ensaios com telemóveis e outras distracções portáteis, estas são confiscadas e devolvidas só no final, para que se possam concentrar no que estão a fazer e no convívio com o rancho.

Passada quase uma hora, foi a vez do grupo principal mostrar como se faz, embora a ensaiadora e as suas ajudantes tivessem aqui e ali uma achega a dar, para aprimorarem um passo ou corrigirem alguma coisa que fosse necessário.

Terminado o ensaio do rancho foi a vez dos bombos do Arsenal darem largas à alegria minhota, ouvindo-se ainda o som da concertina e restantes instrumentos para lá da meia-noite.

Enquanto tudo isto decorria, houve também quem fosse jogando à sueca na cozinha ou ao prego no salão, naquela que foi uma noite bem animada, em jeito de aquecimento para o arraial de São João que se realizou no dia seguinte, sábado (23).

O salão do Arsenal encheu então com as mais de 400 pessoas que até lá se deslocaram para apreciarem esta festa sanjoanina celebrada ao jeito de Braga, com manjericos e "marteladas" na cabeça, num convívio sadio e alegre e onde não faltou um bonito festival de folclore em que brilhou a "prata da casa".

Com iguarias tradicionais incluindo sardinha assada, bifanas, porco no espeto, arroz e chouriço – tudo incluído no preço de admissão – foi um São João divertido e que atraiu entre as visitas que por lá apareceram a deputada federal Julie Dzerowicz, que representa o distrito de Davenport, onde reside a maior concentração de portugueses do Canadá.

Com a entrada agora no período de Verão, as actividades no Arsenal cessam, mas os seus dirigentes têm já planeados o aniversário, em Outubro e a festa de São Martinho, em Novembro.

Entretanto, e passado pouco mais de um ano desde que se mudaram para a nova sede, o vice-presidente da Assembleia-Geral do Arsenal, Francisco Ferreira, está esperançado que possa estar para breve a inauguração oficial, já que "as coisas têm andado para a frente, com sacrifício e muito trabalho" e as obras estão quase terminadas, faltando apenas renovar a cozinha para poderem fazer uma festa em cheio.

"Não estávamos na nossa casa por isso estávamos mais acanhados", acrescenta Laurinda Araújo, que preside ao Executivo, salientando que o esforço para melhorar é contínuo e as obras deverão estar prontas até ao fim do ano.

Entretanto, tudo tem estado a correr pelo melhor já que, como ressalvou, no ano decorrido também já adicionaram cerca de uma centena de sócios ao rol de membros do Arsenal.

Além do orgulho que representa terem "casa própria", esta sede tem tido outras mais valias, como refere Vanessa Veloso, destacando que "só o estacionamento já vale muito", em contraste com a situação caótica que era tentar estacionar em torno da sede antiga.

Francisco Ferreira, que acena afirmativamente perante a intervenção da jovem, explica-nos orgulhosamente que Vanessa é um dos elementos que compõem a secção juvenil do Arsenal e "um exemplo para outros" pois acumula cada vez mais cargos e responsabilidades dentro do clube: dança no rancho, toca concertina, faz parte do grupo de bombos, canta e está à frente da secção juvenil, além de mais recentemente ter passado a fazer também parte da Direcção.

Mais importante ainda, destaca, é uma força mobilizadora dos outros jovens algo que para Vanessa se resume a uma simples fórmula: "Gosto de me poder envolver em coisas que me dêem orgulho, de que eu goste e em que me sinta bem".


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