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Peniche e Academia de Futebol comemoram aniversário duplo

Comitiva do Belenenses deslocou-se ao Canadá para participar nas celebrações

Por João Vicente

Sol Português

Foi há 38 anos que um grupo de amigos se juntou para criar em Toronto uma agremiação dedicada ao convívio dos naturais da zona de Peniche, dai resultando o Peniche Community Club que desde então viria a afirmar-se como um dos principais promotores do futebol na comunidade portuguesa.

No passado sábado (23) a ocasião foi assinalada por cerca de 300 alegres convivas que se juntaram num salão de banquetes para comemorarem também, e em simultâneo, os nove anos desde a formação, sob a tutela do clube, da Academia de Futebol do Belenenses nesta cidade.

A efeméride mereceu a deslocação ao Canadá do vice-presidente da direcção daquele clube de futebol lisboeta, Óscar Machado Rodrigues, bem como da directora-geral de Os Belenenses, Mafalda Fernandes, para participarem nas comemorações.

Óscar Rodrigues indicou que a sua presença neste aniversário fazia parte de uma iniciativa destinada a afirmar a ligação d'Os Belenenses com as mais de 50 filiais e núcleos espelhados pelo mundo – com grande incidência nos países de língua oficial portuguesa, mas também, ressalvou, com alguma expressão já no continente americano – no ano em que se comemora o centenário do clube.

"Para além de conhecer as pessoas e de ter a sensação e o conhecimento da dimensão da influência do clube aqui, na comunidade portuguesa, viemos também – no âmbito deste estreitamento de relações e de perspectivar principalmente o futuro – tentar perceber como é que o Belenenses de Lisboa pode ajudar a academia do Belenenses de Toronto e vice-versa", afirmou o dirigente em declarações à imprensa.

A comitiva visitante estava prevista incluir o presidente da direcção do Belenenses, Patrick Morais de Carvalho, que teve de cancelar a viagem por motivos de saúde.

Em seu lugar, deslocou-se até nós a directora-geral do clube de Belém, Mafalda Fernandes, que destacou que após alguma instabilidade o Belenenses passa agora por um momento de calma e que os sócios estão a regressar, sendo o objectivo atingir 10.000 sócios para comemorar o centenário.

No decorrer das comemorações do Peniche, que abriram com a declaração de boas-vindas por parte da mestre-de-cerimónias, Diana Coito, a primeira intervenção pública coube ao cônsul Rui Gomes, que teria de se ausentar para participar noutro evento mas não sem antes deixar uma mensagem de parabéns à colectividade e à Academia pelo duplo aniversário.

O serão incluiu um jantar convívio após o qual se realizou um animado espectáculo e baile com a Karma Band, sendo que durante o intervalo se escutaram intervenções das entidades políticas locais convidadas.

Os discursos congratulatórios da deputada federal Julie Dzerowicz e da vereadora e vice-presidente da Câmara de Toronto, Ana Bailão, foram seguidos da entrega de certificados alusivos à efeméride, emitidos pelos seus respectivos governos.

Foi também durante o intervalo que três dos sócios-fundadores procederam à cerimónia do corte do bolo de aniversário, após o que se registou uma troca de ofertas entre a Direcção do Peniche e os representantes do Belenenses, aproveitando Óscar Rodrigues para dirigir breves palavras à assistência.

No decorrer do encontro trocámos impressões com alguns dos responsáveis e sócios do clube, incluindo Joel Filipe, que foi um dos fundadores do Peniche.

Natural de Atouguia da Baleia, recorda que no primeiro ano, em 1981, atingiram pouco mais de 300 sócios, número que passou a 800 um ano depois.

Contudo, e apesar de crescerem durante bastante tempo, a dada altura o número de sócios em vez de aumentar passou a minguar e essa é uma tendência que desde então não mais deixou de se fazer sentir.

Admite que talvez tenha um ponto de vista pessimista, mas diz notar um declínio lento da colectividade, lamentando a falta de aderência e o envolvimento das camadas mais jovens – embora destaque que não será de criticar nem o Peniche nem os jovens pois considera que se trata de uma progressão natural.

"Nós já somos luso-canadianos, os filhos são canadianos, os netos são super-canadianos [e] a nossa cultura portuguesa para eles quer dizer pouco mais do que zero", afirma, adiantando que os seus filhos "adoram ir a Portugal, [mas] se nós não formos, por sua autoria não vão",

Considera que isso se deve ao facto de que Portugal "a eles já não lhes diz muito – a vida deles é aqui, criaram-se aqui, formaram-se cá, tiveram os filhos, criaram amizades com outras etnias", dando o exemplo do filho, que se casou com uma italiana e tem já outros grupos de amigos.

É com orgulho, no entanto, que destaca que o Peniche teve sucesso no futebol e foi a única colectividade que manteve esta modalidade como uma das suas principais razões de ser, nunca tendo interrompido ao longo dos anos o seu empenho e a dedicação ao "desporto rei".

Há nove anos isso materializou-se com a formação do núcleo do Belenenses e da academia de futebol, que actualmente conta com 150 jovens, dos sete aos 20 anos, e uma equipa sénior.

Segundo o técnico da academia, José Fernandes, o objectivo é proporcionar actividade física aos jovens, mas também prepará-los para a vida, além de descobrir talentos – alguns dos quais, ressalvou, procuram neste momento singrar no futebol em Portugal.

Exemplo disso é o jovem Mark, filho de Diana Coito, a directora desportiva da academia, que nos conta que o filho "foi para Portugal há dois anos, entrou o ano passado para a equipa de juniores do Caldas, onde foi o melhor marcador, e agora subiu para a equipa A".

Também a nível feminino se registaram grandes sucessos, com a equipa feminina a sagrar-se campeã da Toronto Soccer Association (TSA) por três vezes, antes de subir de divisão para a Premier League, vindo depois a desbandar pois, como conta, algumas das raparigas casaram, tiveram filhos e em geral deram andamento à vida noutras direcções.

Entretanto, este ano os rapazes do escalão sub-16 subiram de divisão para a Canadian Soccer League (CSL) e no ano anterior os sub-18 foram campeões da Taça e da Liga, tendo subido para o nível provincial.

De acordo com o presidente do Peniche, João Freixo, a ambição continua a ser "colocar um miúdo na equipa principal do Belenenses", o que, a seu ver, seria sinal de que o futebol continua a ser uma grande força motriz dento desta colectividade.

Por isso a vinda de dois representantes do Belenenses foi algo de especial, ainda para mais numa altura em que o clube português comemora 100 anos.

Mas o Peniche é mais do que apenas futebol e continua a manter e a preservar o espírito de organismo social familiar que esteve na sua origem.

Como ressalta João Freixo, procuram dar sempre uma refeição aos jovens atletas quando treinam e quando têm jogos perto da sede do clube os jovem podem ir lá tomar banho – assim "quando vão para casa, já vão descansadinhos e alimentados", diz com orgulho.

Ou seja, há um sentido de comunidade também em torno da actividade futebolística que continua a alimentar os sonhos desta colectividade e a prolongar-lhe o futuro.


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