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Associação Cultural 25 de Abril:

Histórias de guerra e da revolução de 1974 recordadas no aniversário da organização torontina

Por João Vicente
Sol Português

O 23° aniversário da Associação Cultural 25 de Abril, Núcleo Capitão Salgueiro Maia, reuniu na pretérita sexta-feira (22) cerca de quatro dezenas de pessoas em Toronto, incluindo dois ex-furriéis milicianos que participaram na intervenção militar que em 1974 depôs o Governo do Estado Novo em Portugal.

O encontro, que teve lugar no restaurante New Casa Abril, teve como mestre-de-cerimónias o presidente da AC25A, Carlos Morgadinho, que começou por convidar o Dr. Tomás Ferreira, presidente da Assembleia-Geral, a pronunciar-se sobre a ocasião e a razão de ser desta organização.

Também o vice-presidente da Assembleia-Geral, Luís Morgadinho, dirigiu algumas palavras ao público antes de se fazerem escutar os hinos do Canadá e de Portugal, após o que o mestre-de-cerimónia proferiu uma oração de graças que precedeu o jantar.

Carlos Morgadinho viria ainda a convidar todos para que nesse domingo (24) se dirigissem ao parque Arlington Parkette, local onde foi erigido o monumento em honra de Aristides de Sousa Mendes, para juntos homenagearem o diplomata português que salvou dezenas de milhar de pessoas do cativeiro e da morte às mãos dos nazis durante a Segunda Guerra Mundial.

Os convidados vindos de Portugal foram então formalmente apresentados, oportunidade que o mestre-de-cerimónias aproveitou para fazer ressaltar o facto das forças que depuseram o governo, aquando do 25 de Abril, terem tratado os seus prisioneiros de forma ética, sem lhes roubar a dignidade.

Como salientou, elogiando a coragem e a calma de homens como os dois convidados especiais, foram militares que souberam honrar "a farda e as divisas que usaram".

Carlos Cabral, que veio dos Açores, tem cá família mas nunca tinha visitado o Canadá e fez questão de destacar o quanto ficou surpreendido "pela positiva" com a presença portuguesa neste país.

Relatando o dia em que se viu um dos protagonistas do histórico golpe militar, recorda que estava encarregue de manobrar um dos chaimites – carro blindado anfíbio, de produção nacional – e que por sua causa terá talvez "atrasado a revolução cinco minutos".

Tudo porque, como explica com uma dose de bom humor, quando foi convocado para a reunião onde estavam para lhe ser comunicados os detalhes da acção militar, que estava prestes a desenrolar-se no dia seguinte, pediu se não poderiam esperar "cinco minutos" para poder acabar de ver o jogo entre o Sporting e o Magdeburg, da Alemanha.

O pedido foi-lhe concedido e, apesar do "atraso", o resto é história.

Como diria ainda, em jeito de conclusão, apesar da apreensão que sentiu na altura – pois tinha apenas 23 anos e viviam-se momentos de incerteza – "felizmente tudo correu bem" e hoje "estamos aqui e muito felizes por estar na vossa companhia".

Também para o colega, João Carmona, as dúvidas e os sobressaltos foram algo que teve de reprimir ao inteirar-se da intervenção que se estava a planear.

"O que é que me vai acontecer? Será que vou regressar à escola? Será que vou estar com os meus amigos? Será que depois poderei ver os meus pais?", foram – como recorda – pensamentos que lhe passaram pela cabeça numa fracção de segundo, antes de tomar a postura que o levou a executar a missão.

O partilhar de histórias de guerra vividas no Ultramar, os momentos derradeiros do 25 de Abril e outras aventuras vividas também por civis naquele período conturbado da história portuguesa preencheram muitos dos momentos de convívio entre os participantes.

Tudo isto intercalado pela cerimónia do corte do bolo de aniversário, pela entoação em uníssono do tema "Grândola Vila Morena" e ainda pelas actuações dos artistas Herman Vargas e Victor Martins, que formalizaram a conclusão desta festa de aniversário.


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