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Naquele que foi o "berço" da comunidade portuguesa:

Iniciativa "Domingos para peões" convida a visitar Kensington Market

Por João Vicente
Sol Português

Já na sua 15.ª edição, a iniciativa "domingos para peões" no Kensington Market – cuja abrangência inclui também a famosa rua Augusta, que já foi bem "portuguesa" – continua a fazer sucesso e a que se realizou no passado domingo (26) foi disso mais um exemplo.

Entre o meio-dia e as 19h00 o trânsito automóvel, que normalmente já é bastante limitado devido ao grande número de peões que se cruzam pelas estreitas vielas desta zona da cidade, foi mesmo eliminado em algumas das ruas principais, o que atraiu ainda mais gente.

Sapatos, meias, camisas, calças, saias e até cabelos de cores vivas abundavam entre a multidão, que incluía personagens tão garridas e alegres quanto as cores do seu vestuário.

Este bairro, caracterizado pelo seu ambiente de mercado público ao ar livre, tem um ecossistema bastante rico em pessoas criativas ou cujo estilo de vestir e forma de estar na vida tendem para o excêntrico ou espampanante.

Isso mesmo ficou amplamente evidente neste último domingo, mas muitos foram também aqueles que mesmo não pertencendo àquela área nem encaixando perfeitamente no espírito boémio que esta projecta, decidiram ir até lá com amigos e familiares – e nem por isso se divertiram menos.

Tom's Place é uma loja de fatos e vestuário masculino na rua Baldwin e embora a sinalização no exterior diga que estão há 50 anos no local, a verdade, segundo o proprietário, Tamas "Tom" Mihalik, é que já celebraram 60 anos desde que o pai ali abriu a porta do negócio, faltando apenas actualizar o sinal.

Em Kensington Market predomina um espírito comunitário que Tom reflecte ao regozijar-se com o sucesso dos seus vizinhos, já que eventos deste género, que levam ao fecho das ruas ao trânsito, não beneficiam tanto o seu género de comércio como o de quem vende comidas e bebidas.

"Acho que é bom para as pessoas", afirma bem disposto, adicionando ainda que "toda a gente vem até cá para desfrutar do que o mercado tem para oferecer e o nosso distinto líder camarário, John Tory, também esteve aí a passear descontraidamente com o povo da cidade".

Esta zona, que foi berço de várias comunidades em Toronto – tanto da judaica como da italiana e da portuguesa – tem vindo nestes últimos anos a definir-se não pela singularidade etno-cultural, mas por atrair uma grande diversidade de gentes e culturas.

Ainda assim, restam alguns estabelecimentos com alma portuguesa, contando-se entre eles o restaurante Amadeu's, onde falámos com a gerente, Cassandra Vitorino, sobre a impressão que tem desta iniciativa.

"É absolutamente fabuloso", diz-nos esta jovem luso-canadiana, realçando que "[a iniciativa] atrai pessoas que normalmente talvez não pensassem em incluir Kensington nos seus planos para um passeio".

Actualmente o bairro "é um local tão diverso, com tantas culturas", ressalta Cassandra Vitorino, que "cada lojinha tem a oportunidade de convidar os transeuntes a experimentar um pouquinho disto ou daquilo, quer seja português, mexicano ou tailandês".

Cassandra diz notar que Portugal está a ser mais conhecido e reconhecido internacionalmente, por isso fica muito feliz quando os clientes referem que já estiveram em Portugal ou têm planos para visitar o país.

Entre os milhares de pessoas que este domingo foram até ao Kensington Market, fomos encontrar uma cara conhecida que também decidiu aproveitar aquele belo dia para apreciar o que o bairro tem para oferecer.

"Adoro o Kensington Market", diz-nos a cantora e autora Luanda Jones, caracterizando-o como "um encontro com amigos" onde "pode ver pessoas a tocar na rua – pessoas que normalmente não veria", e cita o exemplo de "uma menina que cantava lindamente e tocava violão – só ela e o violão, sem microfone nem nada".

Além de que "tem sempre bandas de percussão brasileira", referiu ainda, aludindo à grande batucada que encerrou este dia e evento.

Na verdade, fãs da boa música estavam "nas sete quintas", mas havia muito mais para apreciar, desde as lojas, bares e cafés com artigos diferentes do habitual, até às muitas mesas de vendedores de bugigangas interessantes ou divertidas.

Numa estava uma senhora a vender prosa e poesia por encomenda, noutra alguém vendia mangas descascadas, no espeto, para ir comendo pela rua fora.

Mais adiante, uma série de lindas raparigas vestidas de noiva posavam – decerto para um catálogo de moda – enquanto a poucos passos dali as pessoas iam-se reunindo em torno de um caricaturista e, do outro lado da rua, uma havaiana convidava a lições de dança.

No Jardim Praça Bellevue houve batucada e dança toda a tarde, enquanto ali ao lado as crianças brincavam no parque, algumas a refrescarem-se nos repuxos do "splash pad" ou envolvidas noutras actividades.

No final duma sessão de música, um pequenito dos seus oito ou nove anos lá arranjou coragem para se aproximar do baterista e dizer-lhe: "todas as vossas músicas são bestiais", arredando em sentido contrário tão rapidamente que alguém teve que lhe dizer que o baterista ficou à espera de lhe dar um "fist bump".

Momentos assim, com energia e positividade, foram-se repetindo ao longo duma tarde em que o calor apertou, mas o calor humano talvez tivesse sido ainda maior.

Além do muito que havia para fazer, para ver, para dançar e para comer e beber, e a comprovar que estes momentos sabem sempre melhor quando são partilhados, viam-se muitos grupos de amigos, muitos encontros e reencontros a acontecerem no meio da rua, pelos cafés, bares e lojas, em momentos realmente gratificantes também para quem os testemunhava.

O Kensington Market foi como só o Kensington Market é: uma espécie de oásis no meio da cidade, ou talvez o destilar de tudo quanto define e caracteriza Toronto, reunido num só local.

Claro que tudo tem um fim e o deste evento consistiu em cinco baterias brasileiras que reuniram os seus elementos e os seus talentos, marchando pela rua Augusta acima, da Dundas até à College, e levando consigo toda uma multidão que foi dançando até ao último batuque.

Para este ano restam ainda mais dois "domingos para peões" no Kensington Market: a 23 de Setembro e a 28 de Outubro.

Entretanto, o festival de Jazz de Kensington Market tem agendados mais de 130 espectáculos em 23 locais diferentes, ao longo de três dias: 14, 15 e 16 de Setembro.


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