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"Amigas" de Toronto angariam 85.000 dólares para combater cancro da mama

Por João Vicente
Sol Português

Mais de mil "amigas" portuguesas e luso-canadianas juntaram-se no passado sábado (25) no salão Gerry Gallagher, na sede do sindicato LIUNA Local 183 em Toronto, para a 19.ª edição de um encontro anual dedicado à angariação de fundos para combater o cancro da mama.

De modestas origens, na cave da igreja de Santa Cruz – onde nos primórdios desta iniciativa que procura recriar uma tradição açoriana se reuniam cerca de centena e meia de participantes – o evento, organizado por Ângela "Angie" Machado, tem conseguido crescente apoio e participação pelo que mesmo o enorme salão da "183" já não comporta todas as que gostariam de participar.

"Fico nervosa e não durmo uma noite só para pensar, para sentar, para organizar", explica Ângela Machado a propósito da preparação necessária, que admite ser "um bocadinho difícil" mas logo rematando que "com vontade e fé resolvemos tudo".

O ano passado este evento angariou 82.000 dólares e embora se escusasse a fazer previsões para esta edição, talvez para não dar má sorte, adiantou terem trabalhado muito "para ser mais".

E mais conseguiram pois a quantia arrecadada este sábado ascendeu a 85.000 mil dólares, valor que, como indicou, reverte mais uma vez para a luta conta o cancro da mama.

Actualmente fala-se em muitos outros tipos de cancro, mas quando lançaram estes encontros de amigas era o da mama aquele de que mais se ouvia falar, diz-nos a organizadora, daí terem dedicado a sua acção em prol desta causa.

Trata-se de um trabalho de equipa e apesar dos títulos que descrevem as suas tarefas, todas se consideram voluntárias e ajudam onde for preciso.

É disso exemplo Antónia Domingues, que anteriormente organizava uma caminhada designada "Weekend to End Breast Cancer" até que há cerca de sete anos se aliou à iniciativa de Ângela Machado e desde então calcula ter já angariado "para cima de 25.000 dólares".

As verbas recolhidas são entregues à Fundação do Cancro do Hospital Princess Margaret, para serem aplicadas na pesquisa de tratamentos, pelo que mais uma vez esteve presente como convidada de honra a médica oncologista e professora-assistente da Universidade de Toronto no hospital Princess Margaret, Srikala Sridhar.

Este foi o nono ano em que a médica especialista participou no evento, que considera "uma verdadeira demonstração de apoio" pelo esforço envidado pela Fundação na procura de uma cura e de tratamentos que permitam que "mais mulheres que padecem da doença possam sobreviver e algumas nem cheguem sequer a adoecer".

A médica convidada considerou "espantoso" e "emocionante" ver "este enorme grupo de mulheres apoiar esta causa crítica e importante", o que faz os pesquisadores apreciarem ainda mais o apoio que lhes é dado e pelo qual indicou estarem "muito gratos".

A seu ver, a participação neste encontro de mulheres que se debatem actualmente com a doença permite-lhes partilhar as suas experiências e beneficiar do contacto com outras que sobreviveram ao cancro, um apoio que contribui para as ajudar a vencer também a sua luta.

Conceição Amorim, que esteve presente com a filha, recorda que "é muito difícil" ouvir o diagnóstico de cancro pois nesse momento "vemos um túnel que não tem fim", mas cita o seu caso como um exemplo de esperança já que "com fé e força de viver", pois "tinha muita fé em Deus", conseguiu ultrapassar, já lá vão mais de 20 anos.

Marlene Melo, que na altura tinha apenas 17 anos, confessa que não se apercebeu da gravidade da situação até a mãe começar a perder o cabelo, mas ao vê-la a fazer por manter o ânimo e a alegria, e levar uma vida normal, também ela sentiu esperança e fez por ser positiva.

Mesmo assim, levou algum tempo até poderem suspirar de alívio já que após uma mastectomia e cinco anos de terapia, só quando múltiplos testes semestrais registaram resultados normais e passaram a ser ministrados anualmente é que conseguiram descontrair.

A mensagem que Conceição Amorim gostaria de passar às mulheres que se encontram a braços com a doença é de que façam por enfrentá-la "com coragem" e "não se deixem ir abaixo porque hoje em dia, graças a Deus, os tratamentos já são muito melhores do que eram antigamente".

Apesar da causa a que é dedicada, a noite das amigas é de alegria pelo que para ajudar ao ambiente festivo estiveram a banda Mexe-Mexe e o cantor Henrik Cipriano, no papel duplo de vocalista e mestre-de-cerimónias do evento, assim como os artistas Tony Câmara e Jessica Amaro.

Para Henrik Cipriano, que tal como os Mexe-Mexe tem laços forjados com esta organização ao longo de 15 anos, este é um encontro "para renovar e para criar novas amizades, para relembrar também aquelas que já partiram cedo demais e as que presentemente se debatem com o cancro do peito", mas é também uma ocasião para mostrar que "somos conscientes de que é um problema que existe" e, embora reconhecendo que não será fácil encontrar cura, "a solidariedade das pessoas pode mudar muita coisa".

No decorrer do serão o mestre-de-cerimónias viria a recordar em palco Fátima Pereira, que durante muitos anos participou deste evento, pedindo um minuto de silêncio em sua memória e de quantas já faleceram.

Após o jantar, a diversão começou com os Mexe-Mexe a fazerem jus ao seu nome e a levarem toda a gente a dançar, não só na pista como no corredor e até junto ao bar.

O espectáculo, que teve som e luzes a cargo de Steve Ferreira, da 5 Star Productions,

continuou depois com a actuação do cantor Tony Câmara, também ele um dos artistas favoritos deste encontro anual.

Em declarações ao jornal Sol Português, Tony Câmara revelou que já várias pessoas da sua família foram atingidas pelo cancro por isso lhe dá gosto "como artista que está no palco, ver tanta gente; um mar de amigas a dançar e a festejar", enquanto que, "como ser humano, adoro ver tanta gente unida por uma boa causa".

Quanto ao seu contributo, seria "simples", como referiu: "muita música: minha original, bailinhos, pimbas, música latina, música inglesa", tanta que, brincou, dando uma gargalhada: "não sei o que vou cantar".

Também a artista Jessica Amaro viria a alegrar a ocasião e a dar continuidade ao baile, até que os Mexe-Mexe de novo subiram ao palco, já depois da meia-noite, para encerrarem o espectáculo,

Entretanto, a doutora Srikala Sridhar viria a pronunciar-se publicamente, altura em que lhe foi entregue um cheque no valor de 3.000 dólares angariados por um grupo de senhoras que trabalham para a University Health Network, além de se proceder ao sorteio dos prémios da entrada e de duas viagens a Portugal.

Ao longo dos anos, os donativos angariados por esta organização de mulheres luso-canadianas e doados ao hospital Princess Margaret perfazem mais de 800.000 dólares, incluindo o montante angariado no sábado.


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