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Canadá/Covid-19:

Toronto e Peel entram hoje na terceira fase de desconfinamento

A braços com surtos infecciosos, Windor-Essex é única região no Ontário que permanece na segunda fase da reabertura da economia

O Canadá continua a ter bons resultados na luta contra a propagação do vírus corona, ainda que a nível mundial a pandemia de Covid-19 continue a intensificar-se.

Os mais recentes dados divulgados pelos governos provinciais e federal apontam para a continuação de um decréscimo no número de novas infecções, que se cifraram em cerca de 2.000 novos casos face à semana anterior.

Assim, e depois de cerca de 4,5 milhões de pessoas terem sido submetidas a testes de despistagem desde o início da pandemia, o total nacional regista agora cerca de 114.000 casos confirmados, 8.900 dos quais faleceram e aproximadamente 100.000 são considerados já recuperados.

Dadas as limitações impostas às viagens internacionais e com a fronteira Canada/EUA ainda fechada à circulação "não essencial", as autoridades federais consideram que os novos casos são maioritariamente provocados pelo contágio local, situação que a dra. Theresa Tam, responsável pelos serviços de saúde pública nacionais, vê como "uma alteração fundamental na epidemiologia da doença".

Segundo a Agência de Saúde Pública do Canadá, só cerca de 25 por cento dos casos envolve contágio no contexto de viagens internacionais, sendo os restantes 75 por cento resultado da propagação local do vírus.

De acordo com as autoridades, as pessoas que estão infectadas mas não exibem sintomas são as que mais facilmente transmitem a doença uma vez que provavelmente não sabem que são portadoras do vírus.

Por este motivo, o distanciamento social continua a ser considerado fundamental para impedir a propagação do contágio.

Uma análise da demografia da doença revela que a maior incidência regista-se na população entre 50 e 79 anos de idade, mas o facto da informação etária nem sempre acompanhar o relatório de todos os casos e dado haver grande número de pessoas que não apresenta sintomas torna-se difícil uma avaliação conclusiva.

Contudo, mais recentemente as autoridades têm notado um aumento no número de jovens infectados, o que os responsáveis pelos serviços de saúde atribuem ao facto de que, cansados de estarem isolados e com a abertura de muitos bares, muitos convergem nesses estabelecimentos descuidando as regras de segurança.

Tal como desde o início, o Ontário e o Quebeque continuam a ser as províncias mais afectadas, sendo que mais de metade dos óbitos ocorreram na província francófona e a vasta maioria se deveu a surtos infecciosos em lares e instituições da terceira idade.

Esta semana, face ao mais baixo número de novas infecções detectadas num período de 24 horas (76) desde 23 de Março, a província do Ontário anunciou quarta-feira (29) que Toronto e a região de Peel vão entrar hoje, sexta-feira (31), na terceira fase de desconfinamento e de reabertura da economia.

Segundo revelou a ministra da Saúde, Christine Elliott, apenas a região de Windsor-Essex – onde se têm continuado a registar surtos infecciosos, sobretudo entre os trabalhadores sazonais contratados para trabalhar nas herdades locais – permanecerá na segunda fase de desconfinamento.

O governo indicou que a decisão foi tomada face às tendências positivas em termos dos principais indicadores de saúde em Toronto e Peel, incluindo a capacidade de resposta dos hospitais e de rastrear os contactos das pessoas infectadas.

A terceira fase de desconfinamento permite retomar uma série de actividades que estavam proibidas, incluindo a realização de espectáculos ao vivo, enquanto que os cinemas e parques infantis voltam a poder abrir e os restaurantes a servir nas suas salas interiores e não apenas nas esplanadas – ainda que sujeitos a várias regras que ditam a periodicidade de desinfecção, limitam o número de clientes e prescrevem a distância que estes devem manter entre si.

O Primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, salientou que a província tem feito "enormes progressos" na contenção do contágio, o que permite agora "retomar algo parecido com a nossa vivência normal durante o Verão, ainda que", advertiu, "não estejamos ainda livres de perigo".

Como destacou, "o vírus continua entre nós e temos de ser ultra-cautelosos para evitarmos dar origem a novos surtos ou focos infecciosos", motivo porque pediu a todos para que "continuem a seguir os protocolos de saúde pública" ditados pelas autoridades.

O número de pacientes hospitalizados com Covid-19 no Ontário desceu para 91, o mais baixo desde que estas estatísticas começaram a ser divulgadas, a 1 de Abril, assim como diminuiu o número dos que se encontravam em unidades de cuidados intensivos ou ligados a respiradores.

Com 38.896 casos confirmados até quarta-feira (29), o Ontário tem sido a segunda província mais afectada pela pandemia de Covid-19 mas, segundo as autoridades, 89 por cento são considerados recuperados e apenas 1.476 estão dados como "activos".

Apesar disso, a situação em Windsor-Essex continua sob vigilância, sendo que as zonas em torno de Kingsville e Leamington continuam a registar surtos entre os trabalhadores sazonais que vivem frequentemente em espaços exíguos e partilhados, o que dificulta a observação das regras de distanciamento.

Duas cidades que entraram a meio do mês na terceira fase de desconfinamento, Otava e Sudbury, têm registado maior incidência de infecções nos últimos dias, mas o Primeiro-ministro provincial indicou que não está previsto voltarem a impor-se restrições para além das que estão em vigor no momento.

A nível de Toronto, o departamento de saúde pública da autarquia indicou na quarta-feira à tarde que apenas tinha registado um caso nas 24 horas que precederam a sua conferência de imprensa diária, embora na véspera tivessem contabilizado seis casos adicionais.

Apesar disso, o Presidente da Câmara, John Tory, diz continuar preocupado com a entrada do município na terceira fase de desconfinamento e alguns dias antes enviou uma carta ao Primeiro-ministro Doug Ford para pedir a implementação de uma série de medidas a aplicar aos bares e restaurantes, incluindo restrições no horário de funcionamento, obrigando-os a fechar mais cedo, a imposição de regras de distanciamento mais exigentes e a obrigatoriedade dos clientes permanecerem sentados quando no interior dos estabelecimentos.

O autarca destaca que estas estipulações não são da jurisdição da Câmara e que só o governo provincial as poderá decretar, mas, caso se verifique um aumento brusco no número de infecções, não hesitará em comunicar com o Primeiro-ministro Doug Ford a propósito da necessidade de imporem estas e outras restrições.

O edil pronunciou-se também a respeito de uma série de ocorrências que classificou de "bizarras" – festas realizadas em alguns clubes e bares nas últimas semanas e que são deliberadamente planeadas para atrair grande número de pessoas.

"Este é o género de acontecimento que não podemos permitir", referiu, adiantando ser necessário cada um usar de "bom senso" no que diz respeito a frequentar estes eventos ou simplesmente, quando se deslocam a uma praia e vêem que está cheia, para virarem costas e irem a outro lado.

Quanto ao cumprimento das regras nos restaurantes, John Tory lembra que compete tanto aos responsáveis pelos estabelecimentos como aos clientes obedecer à lei mas mostra-se optimista de que, tendo em conta "o castigo" que este sector e os seus empregados têm sofrido, bem como os que gostam de os frequentar, em geral não haverá problemas de maior face às penalidades que podem incorrer.

Com a entrada de Toronto na terceira fase de desconfinamento entram em vigor também novos limites para o número máximo de pessoas que podem participar em festas e encontros – 100 ao ar livre e 50 em espaços fechados – mas as autoridades de saúde ressalvam que as regras a respeito do distanciamento social continuam a aplicar-se, assim como a obrigatoriedade do uso de máscara.

A propósito deste tema, John Tory anunciou a adopção pela Assembleia Municipal de um novo decreto-de-lei temporário, com efeito a partir de 5 de Agosto, que exige o uso de máscara nas áreas comuns dos prédios de apartamentos e condomínios.

O edil considera que se trata de uma cortesia que todos devem ter para com os outros residentes e inquilinos, "ao entrarem e saírem" dos prédios, assim como quando estão nas chamadas áreas de uso comum, incluindo elevadores, lavandarias, salas de exercício e outras.

Tal como o seu uso nos transportes públicos, está prevista uma isenção para crianças com menos de dois anos e para pessoas com problemas médicos.

Com a reabertura da economia e o levantamento de grande número de restrições, John Tory apela ao público para que continue a seguir as regras para evitar uma segunda vaga de infecção uma vez que, como destacou, "não queremos andar para trás".

"Vamos passar a esta terceira fase porque tivemos sucesso em travar o contágio de Covid-19 e isso deve-se às empresas... que vão reabrir", mas, enfatizou, "a Covid-19 ainda está connosco" e "não tira férias no Verão"

Entretanto, o Primeiro-ministro Doug Ford anunciou a criação de um fundo de auxilio às autarquias, no valor de 4.000 milhões de dólares, destinado a ajudá-las a equilibrarem os seus orçamentos na sequência da pandemia.

As verbas serão distribuídas ao abrigo do programa Safe Resart Agreement, em parceria com o governo federal, e os detalhes tornados públicos nas próximas semanas.

Para já, foi revelado que cerca de metade das verbas destinam-se a ajudar as comissões de transportes públicos que foram fortemente afectadas pela redução no número de utentes durante a pandemia.

Onze das maiores autarquias na região de Toronto-Hamilton pronunciaram-se de imediato, considerando este um primeiro passo essencial e positivo para equilibrarem as finanças.

Com os preparativos já em curso para o próximo ano lectivo, continuam também os debates em torno da melhor forma de retomar o ensino nas escolas.

O hospital das crianças, Sick Kids, emitiu esta semana um parecer sobre a forma como as escolas devem proceder para que o regresso às aulas se processe de forma segura perante o risco de contágio pelo vírus corona.

O documento dá continuidade a uma avaliação que havia sido feita em Junho por um grupo de médicos de todo o Ontário e reitera o parecer então expresso de que "o objectivo principal deve ser o regresso às aulas, presenciais e a tempo-inteiro, com a adopção de estratégias de mitigação dos riscos para garantir a segurança de todos".

Com base nos dados mais recentes, não apenas a nível provincial mas do Canadá e do resto do mundo, os peritos concluem que as crianças não são os "super propagadores de Covid-19" que inicialmente se pensava e embora possam fazê-lo, como qualquer outra pessoa, a frequência de contágio é inferior ao que inicialmente se esperava.

Entretanto, com a reabertura da economia e o desconfinamento da população, as autoridades continuam a prever um ligeiro ressurgimento no número de novas infecções.

A Dra. Eileen de Villa, directora dos serviços de saúde de Toronto, indica que será de esperar, mas que há medidas que se podem tomar para evitar grandes surtos ou minimizá-los, tanto quanto possível.

Embora se espere o melhor, a médica ressalva que a Câmara terá que se preparar para o pior e acrescenta que a propagação do vírus está dependente de cada um de nós enquanto não houver uma vacina ou tratamento eficaz.

Contudo, e face à pressão da comunicação social para que as autoridades indiquem se tencionam voltar a impor restrições se se registar um aumento no número de casos, foi particularmente elucidativa a resposta esta semana da directora dos serviços de saúde de Alberta, província já a braços com esse cenário.

Em conferência de imprensa, a Dra. Deena Hinshaw indicou que depois de a 12 de Junho a província ter começado o processo de desconfinamento, "neste momento" o governo "não está em situação de ter de pensar em andar para trás".

Mantendo-se firme na necessidade de Alberta retomar a actividade ao ritmo actual, apesar de se observar um aumento no número de casos desde então, a médica retorquiu que é necessário também ter em conta outros factores que afectam a saúde pública, para além da pandemia.

Como explicou, "a saúde é muito mais do que apenas evitar a Covid-19", lembrando que quando a economia foi obrigada a parar quase por completo, isso teve vários impactos negativos na saúde mental dos cidadãos, em grande parte devido ao surto de desemprego que de imediato se verificou.

"Precisamos de equilibrar estas situações", destacou a médica, reiterando a sua convicção de que com a aplicação sensata de medidas de segurança e o cumprimento das regras pelo público "podemos avançar com sucesso".


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